GUIMARÃES ROSA COMO O “SCHINDLER BRASILEIRO” ABRE FESTIVAL DE BRASÍLIA.

Antes mesmo de publicar seu primeiro livro, o famoso escritor mineiro João Guimarães Rosa, autor de clássicos como “Grande Sertão: Veredas” e “Sagarana”, já havia vivido seus dias de Oskar Schindler. Nomeado cônsul brasileiro na cidade alemã de Hamburgo, em 1938, Rosa viu eclodir a 2ª Guerra Mundial, literalmente, ao seu lado. E até janeiro de 1942, ano em que o Brasil entrou no conflito, conseguiu salvar a vida de dezenas de pessoas, facilitando, nem sempre pelas vias estritamente legais, a liberação de documentos para que judeus perseguidos deixassem a Alemanha.

A história é (muito bem) contada no documentário capixaba “Outro Sertão”, primeiro longa metragem da mostra competitiva exibida no 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme é dirigido a quatro mãos femininas: Adriana Jacobsen, mestre em Ciências da Comunicação que divide seu tempo entre o Brasil e a Alemanha; e Soraia Vilela, jornalista também graduada em Berlim, residente em Belo Horizonte.

Retratar Guimarães Rosa como um autêntico humanista salvador de judeus é apenas uma das cerejas do bolo de “Outro Sertão”. Através de intensa pesquisa, o filme levanta preciosas cartas escritas por Rosa para seus parentes e amigos, enquanto morava em Hamburgo, que se contrapõem com ásperos relatórios das autoridades alemãs solicitando investigações sobre aquele homem que poderia colocar em risco os ideais nazistas. É rico o paradoxo provocado pelos dois tipos de textos diametralmente conflitantes: enquanto as cartas de Rosa exibem fluidez e poesia que denotam o talento literário do escritor até nos mais simples bilhetinhos e anotações, os textos oficiais explodem na tela com a rudeza do totalitarismo. O fato destes últimos serem narrados em alemão ajuda bastante.
Há também farto material de arquivo sobre a 2ª Guerra, uma grande entrevista de Rosa na TV alemã (mostrando o escritor já consagrado), além de depoimentos de judeus e seus descendentes, radicados no Brasil, que devem a Guimarães Rosa suas sobrevivências e a continuidade de suas famílias.

Entre histórias de heroísmo e imagens de guerra, um pequeno detalhe lúdico injeta uma bem-vinda dose de ingenuidade e pureza a toda a trama: Rosa se apaixonou pelo idioma alemão com apenas 9 anos de idade, encantado pelas consoantes dobradas, palavras que começavam em “Pf” e pela profusão de vocábulos com “schw”. Como se sabe, o garoto cresceu e continuou profundamente apaixonado pelos sons e formas das palavras. Melhor para a literatura brasileira.

O brilho de “Outro Sertão” e do mais que favorável pontapé inicial que o filme proporcionou ao 46º Festival de Brasília foi logo em seguida empanado pelos problemas de projeção do segundo longa da noite, “Os Pobres Diabos”, cuja exibição teve de ser adiada, até o momento não se sabe para quando. Paira sobre os próximos concorrentes um grande temor pelas condições técnicas do equipamento e das instalações do Cine Brasília, recém reformado, dizem alguns, às pressas.
Celso Sabadin viajou a Brasília a convite da organização do evento.