MISOGINIA, RACISMO E BETS EM “AMEI UM BICHEIRO”.

Por Celso Sabadin.

 

Acho que já falei isso por aqui antes, mas vale a repetição. Adaptando para o cinema a filosofia de Heráclito que ninguém mergulha duas vezes no mesmo rio (porque as águas passam e o rio muda), acredito também que ninguém vê duas vezes o mesmo filme. Não porque os filmes mudem, mas a nossa percepção deles, sim.

 

Por exemplo, da primeira vez que vi “Amei um Bicheiro” (e isso faz muito tempo), não havia me impactado muito com a cena na qual Almeida (José Lewgoy), estapeia e em seguida estupra sua amante Yvonne (Josette Bertal), ao saber que ela o trai com Carlos (Cyl Farney).

 

Acredito que tenha ficado mais impressionado, na época, quando alguns capangas de Almeida agridem a socos e pontapés a jovem Laura (Eliana Macedo), esposa de Carlos. Mesmo a ação acontecendo fora de quadro, o fato dela estar grávida potencializa a crueldade do momento.

 

As leituras racistas também me escaparam, na época. O personagem Passarinho (Grande Otelo), o único negro do filme, protagoniza duas supostas piadas de cunho racial que devem ter causado risadas nas plateias de 1952. Na primeira, quando ele  pede uma cachaça ao garçom, Carlos o adverte dizendo que cachaça é “água que passarinho não bebe”. Ele retruca, sorrindo: “mas eu sou o passarinho preto da família”, deixando implícita uma associação estrutural do álcool com os negros.

Na segunda, Carlos diz a Passarinho que está sem dinheiro, e que sua única salvação seria ganhar no jogo do bicho, no qual apostou na girafa e no macaco. Passarinho lhe pergunta: “Você sonhou comigo?”. Carlos lhe diz que não. Passarinho arremata: “Então vai dar girafa”.

 

“Amei um Bicheiro” é um filme que mostra criminosos tendo medo da polícia, situação que causa estranhamento à realidade brasileira. Há uma breve fala de Almeida, o líder de uma grande banca de bicheiros, que sugere um esquema de corrupção entre ele e a lei. Ao telefone, ele diz: “Pois então suborna quem tiver que subornar. É, você já sabe como é. Mexe os pauzinhos como bem entender. O negócio é tirar o Carlos de lá ainda hoje”. Mas como Carlos não sai da cadeia “ainda hoje”, permanecendo preso por seis meses, percebe-se que o poder de corrupção de Almeida não é tão forte como ele supunha ser.

 

Lançado em abril de 1953 em 14 cinemas paulistanos, “Amei um Bicheiro” é uma produção da carioca Atlântida Cinematográfica que não segue a linha da comédia musical, o grande filão comercial da empresa. Pelo contrário, o longa se inspira no policial noir estadunidense, replicando um de seus temas preferidos: o do protagonista bem intencionado que quer sair da criminalidade, mudar de vida ao lado de uma “boa moça”, mas é impedido pelo seu passado de contravenções.

Tal inspiração com o cinema noir fica bastante explícita não apenas pelo tema básico da obra, como pela construção dos personagens – que evita o maniqueísmo superficial – e também pelo trabalho de fotografia (ótimo), aqui assinado por Amleto Daissé, com assistência de Herbert Richers (não, ele não fazia apenas “versão brasileira”).

 

A eficiente transposição dessas estruturas estadunidenses para a nossa realidade – incluindo a boa ideia de abordar o brasileiríssimo jogo do bicho –  é mérito do argumento de Jorge Dória e do roteiro de Jorge Ileli, de Marcelo Dória (não sei dizer se há parentesco entre eles) e do próprio Jorge. O Imdb diz que Anselmo Duarte teria sido um dos corroteiristas, informação não confirmada pela Cinemateca Brasileira.

 

A direção é de Jorge Ileli e Paulo Wanderley, com assistência de Carlos Manga, o rei das chanchadas da Atlântida.

 

Há mais de 70 anos, “Amei um Bicheiro” já abordava os malefícios da bets.

 

Tem uma cópia gratuita e bem razoável em www.youtube.com/watch?v=NvonLhdHstA e uma outra (que eu nem vou colocar o link aqui) que deveria ser excomungada pelos deuses do cinema por alterar a janela original e cometer uma colorização bizarra.

 

dorahoki AMANAHTOTO