NOITE DE CONTRASTES NO PRIMEIRO DIA DE GRAMADO 2014.

A abertura da 42ª edição do Festival de Cinema de Gramado foi um ótimo exemplo das várias emoções que o cinema pode proporcionar. Em cerca de apenas quatro horas, dois filmes levaram o público da indignação à ternura, do caos ao êxtase. A primeira noite do evento exibiu, na sequência, um filme onde tudo deu errado e outro onde tudo deu certo.

Fora de competição, o carioca “Isolados”, de Tomas Portella, foi onde tudo deu errado. A ideia era investir no cinema de gênero, criando um suspense com pitadas de terror a partir da boa e velha (mais velha que boa) situação de um casal (Bruno Gagliasso e Regiane Alves) em perigo isolado numa cabana no meio do mato. Os créditos iniciais já se mostram os arautos do desastre que viria a seguir: sobre uma trilha musical decalcada nos mais manjados terrores adolescentes cometidos pelo cinema comercial norte-americano, inserem-se os letterings borrados e tremidos dos profissionais que fizeram parte do filme. Igualzinho a tantos outros do gênero. Acompanha-se então a trajetória deste casal que vai se isolar na tal cabana, justamente na mesma área onde tem acontecido ataques de violentos assassinos adeptos da necrofilia.

A partir daí, fica-se com duas impressões. Uma ou outra. Primeira: o diretor seria um apaixonado por tudo que o cinema comercial norte-americano já fez de pior no gênero horror, e resolveu homenagear todos os seus clichês. Ou, segunda: o diretor não tem conhecimento de tanta coisa ruim feita pelo cinema comercial norte-americano do gênero terror, e ingenuamente acabou embarcando no inconsciente coletivo da imitação da ruindade.

De fato, nada funcionou. Desde o roteiro de Mariana Vielmond (filha de José Wilker e René de Vielmond) que se embaralha na busca por uma suposta “grande descoberta” final, passando pela fragilidade das interpretações, e chegando à mesmice da direção de Portella (o mesmo da comédia “Qualquer Gato Vira Latas”), que se apoia nas formulações ultrapassadas que remetem aos antigos “Sexta-Feira 13” ou “A Hora do Pesadelo”. Tem até momentos de trilha sonora tocada de trás para frente, tentando causar estranhamento, recurso que o horror dos anos 80 usou tanto até virar piada.

O filme se encaixa na corrente de um novo cinema brasileiro que preferiria ser norte-americano. Da mesmo forma que trabalhos como “Se eu Fosse Você”, “Dois Coelhos”, “De Pernas Pro Ar” e vários outros buscam fazer apenas versões brasileiras de antigas fórmulas já consagradas (e até já descartadas) no exterior (parece que teremos em breve até uma versão brasileira de “O Mentiroso”, de Jim Carrey, com Leandro Hassun), “Isolados” tenta repetir aqui tudo o que já foi feito lá.

A única justificativa plausível para “Isolados” ter sido escolhido para abrir o Festival é que o filme marca o último trabalho de José Wilker (aqui, em pequena participação especial), o que poderia lhe servir como homenagem, já que o ator também era curador em Gramado. Nada mais.

Apesar de todo o terror do filme, em vários sentidos, o que realmente mais machuca é a última frase que aparece na tela, fechando os créditos: “Este filme foi produzido com recursos públicos através das leis…” etc etc… Aí, além de tudo, dói no bolso do contribuinte.

Agora, o lado bom.

Passada a indignação do primeiro filme, teve início a sessão competitiva propriamente dita, com a exibição de “A Despedida”, roteirizado e dirigido por Marcelo Galvão. Minha relação com a obra de Galvão é um pouco heterodoxa: gosto muito, por exemplo, de “Quarta B”, que quase ninguém gostou, e não suporto “Colegas”, que foi aclamado em vários festivais, inclusive aqui em Gramado, de onde saiu vencedor. Fazer o que, crítico é um bicho meio estranho mesmo…

A cena inicial de “A Despedida” é um primor, mostrando, simples e cruamente, o esforço hercúleo que um homem de idade avançada tem para conseguir fazer aquilo que todos nós fazemos todos os dias, quase sem pensar: levantar da cama pela manhã. A câmera de Galvão simplesmente abre todo o seu espaço e todo o seu tempo para brindar Nélson Xavier (e o público, claro) com uma das melhores interpretações de sua carreira, na pele de um homem bem mais velho que o ator que o interpreta. Correndo o risco de ser exagerado, já pintou um grande favorito ao Kikito de ator.

Cada mínimo ato deste personagem, que mais tarde saberemos se chamar Almirante, é por ele mesmo comemorado como uma grande vitória. Aos poucos, saberemos que Almirante tem uma grande motivação para reunir tudo o que resta de suas poucas forças e se embrenhar pelas ruas de São Paulo: se reencontrar com uma, ao mesmo tempo, jovem e antiga amante (Juliana Paes). Normalmente jamais escreveria, num texto meu, a informação que a amante é a motivação do protagonista, pois acredito que seria muito melhor para o público que isso fosse uma surpresa de roteiro. Mas já que a própria sinopse do filme impressa no catálogo do festival entrega o jogo, não serei eu mais realista que o rei. Aliás, fica uma sugestão aos organizadores do evento: muita gente não gosta de saber a “historinha” do filme antes de vê-lo, assim seria interessante que os apresentadores de Gramado não lessem as sinopses antes da apresentação de cada competidor, pois muitas delas, feitas sem critérios, acabam estragando surpresas que seriam muito melhores que fossem desvendadas durante a projeção, e não antes delas. Fim do parêntese.

É notável o amadurecimento cinematográfico de Galvão demonstrado em “A Despedida”. Em sentido diametralmente oposto a “Colegas”, aqui ele sabe elaborar as sutilezas, dá tempo e espaço à sensibilidade, dirige sem pressa, no ritmo do seu protagonista, aproveita as belas interpretações que lhe são entregues pelo elenco, e mais, utiliza com precisão uma das mais importantes (e mais esquecidas) ferramentas do cinema de qualidade: o silêncio, o tão bem-vindo, importante, fundamental e querido silêncio. O silêncio que valoriza sobremaneira a música que o quebra com paixão e poesia: “Esses Moços”, de Lupicínio Rodrigues.

A julgar pela calorosa recepção da plateia, desta vez parece que o público e este crítico se entendem em relação a um filme de Marcelo Galvão.

Celso Sabadin viajou a Gramado a convite da organização do evento.