OLHAR DE CINEMA 2012: “TWIGGY” E O RETROCESSO DO CINEMA FRANCÊS.
No sábado de Curitiba – com o festival continuando seu caminho até emocionante pelas reações e constâncias do público (ontem estive na agradável Cinemateca e fiquei surpreso com a fila que se formava para o “velho e antiquado” Faces, do Cassavetes), no clima mais intenso de trocas e conversas que se deu pelo aumento do número de realizadores e imprensa, pela correria constante dos responsáveis (que andam uma organização quase inacreditável para uma primeira jornada) –, a cidade revelou-se mais para as verdades narradas por Trevisan e Leminski , do que aquela somente bela e organizada para “ingleses aproveitá-la”. Contrastando com a impressionante paz reinante durante os outros dias – quando ela era “somente” bela, organizada e limpa, com muitas mulheres bonitas e gente moderninha circulando bem vestidas aqui pelo Centro e Batel, e algo de clima antigo que a faz ser pensada como uma São Paulo antiga de diversas épocas (desde os casarões aos prédios sessentistas, ou no comércio de rua com libaneses falando árabe na porta de seus estabelecimentos, paralelamente a outros em que judeus oram enquanto se adentra no seu comércio em busca de uma quinquilharia) -, vi cena de briga no trânsito com riquinho burguês de “jeepão” e moto na caçamba saindo de arma em punho, trombadinhas bastante bêbados ou drogados tentando arrancar a bolsa de uma mulher, muitos bêbados/mendigos abordando de modo ostensivo para um pouco do o que é seu de direito, “michês” aqui ao lado, no calçadão…
Na realidade, para além das surpresas de momento, isso revelou-a mais humana e interessante ainda, pois organismo vivo e dinâmico: num um belo presépio com estatuazinhas de santinhos. Já que temos nossas carências, que não sabemos tratar nossas misérias e miseráveis, que pulsamos, me pereceu bastante justo perceber a bela cidade também suando e ofegando. Se ela é melhor – e isso com certeza é – em organização e atenção do que quase todas as outras granes do nosso entorno tupiniquim, bom revelar algo de sua “sujeira”: detestaria pensá-la higienizada, humanamente, também, pois geraria desconfiança. Prefiro-a viva.
E, justo novamente resgatar mais um texto do Cassavetes, além de surrupiar um outro texto do Cesar Zamberlan (não deu para ver o Las Acacias para uma cobertura mais informativa.
OLHAR RETROSPECTIVO
Faces (Faces), de John Cassavetes. EUA, 1968, 35mm, 130 min, ficção
Falar da aula que o grande John Cassavetes (do cinema independente, dos tipos desesperados e amores questionados, da “volta” como possibilidade a ser sempre considerada) dá em Faces sobre como se tratar a decupagem com respeito, é mais ou menos chover no molhado.
Dizer que ele usa a possibilidade da montagem dessa película como se fosse um exemplo do quanto um filme pode ser beneficiado pelo uso da técnica, resvala num discurso didático que acaba por parecer normal e pequeno demais ante o resultado obtido, que tem muito de sua força potencializada justamente pelo erro, pelo uso não convencional dos cortes, por alguns planos tremendamente estranhos. Há também um apuro incontestável na utilização da granulação bastante pronunciada em seu preto e branco impecável e de matiz apropriada à revelação de nuances psicológicas.
Lógico que não estou tentando desmerecer os elogios que o filme recebe já “secularmente” por esse apuro técnico e de certa forma revolucionário. Só que a observação da obra por esse viés único seria quase um crime cultural; uma diminuição do caráter abrangente que Cassavetes sempre exercitou como observador atento e perspicaz de sua época. Vale lembrar que o diretor norte-americano de origem grega talvez tenha como maior mérito – melhor dizendo: um dos grandes méritos – uma qualidade, provavelmente inata, de ser um grande analista do movimento revolucionário-comportamental em uma época bastante complexa e incendiária. Ele coloca em diversas de suas obras grandes momentos de transformação que ocorriam simultaneamente à sua realização, num feito que normalmente só consegue impacto e poder de conclusão razoável quando trabalhado após um certo distanciamento temporal dos fatos.
Quando Faces inicia, percebemos automaticamente que estamos dentro de uma obra do diretor. O ritmo meio que alucinado de atuação, com as pessoas filmadas de muito perto – por vezes há a impressão de que a câmera chega até a roçar os atores – e as nuances de comportamento um tanto quanto que exacerbadas de cada protagonista que surge na tela, firmam a assinatura de Cassavetes. Essa proximidade inventada por ele se faz muito mais importante quando fica nítido que ele trata de personagens da vida comum, e que busca jogar à análise ou compreensão do público o momento histórico, onde homens e – principalmente – mulheres passaram a pôr em prática os ganhos obtidos da “revolução de costumes e moral” que ocorria paralelamente. Então: o que se vê em Faces são seres que não sabem tratar direito dessa novidade que se faz urgente e importante. São seres angustiados e de certa maneira desesperados em não deixar escapar o trem da História que passa à porta. Daí ao erro, um passo. Daí às extremidades – boas e más -, mais outro passo. E o filme experimental – por excelência e por proposta eterna do realizador – também passa a tentar entender a “experimentação humana” atrás da qual partem seus personagens. Um dos resultados mais evidentes desse momento comportamental foi o aumento desmesurado do número de divórcios nos Estados Unidos. Vendo o filme fica nítida a razão pela qual tal fenômeno ganhou proporções tão significativas, pois o que se apresentava era a possibilidade do outro lado disponível, sem o medo da crispação social do entorno – sem a acusação moralista -; da outra face do sexo mais “disponível” e disposta, sem o medo das “instituições” acusadoras. O que temos, resumidamente, é um casal que tenta entender até que ponto essas possibilidades são viáveis. Richard Forst (John Marley) descobre esse seu alvo possível a ser alcançado na figura forte, consciente, provocadora e arrojada de Jeannie Rapp (Geena Rowlands, mais uma vez precisa em sua composição; e maravilhosa). Vai atrás desse canto de sereia e enfrenta todos os estereótipos de uma sociedade competitiva por excelência para serem enfrentados (os comportamentos machistas que tentam defender a sua imposição sobre a fêmea almejada estão presentes o tempo todo durante esse processo de busca, e são discriminados pelo diretor como se fossem uma espécie, mais de patuacada do que algo a ser levado a sério).
Já a outra face do casal, representada pela bela e emocionante Maria Forst (Lynn Carlin) também acaba por aceitar a procura dessas novas possibilidades, mas muito mais ao jeito feminino. As descobertas e os ganhos modificaram muito mais fortemente a imagem e o comportamento da mulher após esse período, mas a maneira pela qual Maria acaba por ingressar nessa tentativa é um bom resumo da maneira através da qual a maioria das mulheres (principalmente as mais maduras) descobriu, ou tentou, esse processo. Aliás, quando ela e suas companheiras aparecem na “boate”, vendo os mais jovens dançando de modo ousado e revelador, o filme ganha uma aura de verdade e emoção incrível. Suas figuras, seus modos de se imaginarem ousando – cada uma ao seu jeito -, a maneira como o jovem é levado à casa de Maria, todo esse segmento do filme acaba por botar no chinelo o outro “lado” envolvido tamanha a sintonia que o diretor conseguiu entre as atrizes e as câmeras.
E está delineada a grande história que Faces quer contar. Que é tão importante por sua temática, que pareceria ridículo permitir análises somente sobre a excelência técnica de Cassavetes. O mais bacana é que tudo contribui demais para um trabalho orgânico. Há a sequência em que Maria age de maneira tonta e emocionante, todo o processo do jovem na tentativa de desfazer uma bobagem enorme, e que tem seu valor realmente realçado pela câmera que gruda nos personagens e transmite para a tela seus suores e desesperos. Há a quebra dessa emoção com uma cena estranha, no telhado – pontual para definir o jeito de entender cinema do diretor e seu modo de desmistificar os exageros numa trama. E há o grande momento final, na escada, com isqueiro e tudo, cortes e voltas, altos e baixos, mais a esperança e fé na “normalidade” após a tempestade procurada, onde se pode encontrar – aí sim sem jeito de deixar de citar – uma aula da tal da decupagem. Há Faces, afinal.
JANELA INTERNACIONAL
Las Acacias, de Pablo Giorgelli. Argentina/Espanha, 2011, DCP, colorido, 85 min, ficção
Por Cesar Zamberlan
Las Acacias é um filme de história bastante simples: uma viagem e a relação entre a caronista, Jacinta, com uma filha de colo, com o caminhoneiro que as leva, Rubem. Mas, desta pequena história, Pablo Giorgelli constrói um filme muito grande e inacreditavelmente maduro para um estreante.
A matéria do filme é a transformação, e ela ocorre com tamanha verdade e de maneira tão bem articulada em cada imagem, em cada semblante, em cada olhar, em cada atitude, que o filme acaba por nos carregar com os personagens neste processo.
Giorgelli filma essa jornada sem nenhum tipo de excesso, da maneira mais natural possível. Os poucos diálogos são tão reveladores quanto a mudez diante de um gesto, diante de um sorriso, diante uma situação.
Do mínimo, de uma situação que se dá quase toda na cabine de um caminhão, ele extrai, graças a atuações muito bem dirigidas, um silencioso retrato da solidão de duas pessoas comuns, duras diante de um vida que se supõe ter sido difícil – algo que fica subentendido pela pouca vontade que se tem de falar do que passou, e pela forma como este passado toca a ambos: o pai que não vê o filho e a mãe cuja filha não tem um pai.
A mudança de Rubem, o caminhoneiro, não o transforma numa pessoa melhor do que era, mas revela um outro lado seu, escondido. O desencanta aos poucos de uma espécie de feitiço, e é o encantamento por Jacinta e sua filha Anahi que, aos poucos, começa a surtir efeito no sentido de tirá-lo de uma letargia, de um estado de mineralização, de um automatismo imposto por uma estrada cujo caminho é sempre o mesmo, por um destino que exige a linha reta com paradas protocolares para se despedir dos mortos e cumprir pequenos rituais familiares, um presente de aniversário, que o mantém, ainda que minimamente, preso ao mundo.
E o momento de epifania nessa jornada é a sequência final, quando Rubem entrega Jacinta à sua família e observa, fora da cena familiar, mas não da cena do filme, o afeto geral, a alegria que transborda e a possibilidade de ser feliz. Ele hesita nesse espaço limite, é colocado à prova, entre ser outro e ser o mesmo do inicio do filme.
O Argentino Las Acacias ganhou a “Camera D´Or” em Cannes e vários prêmios para diretor estreante em outros festivais.
OUTROS OLHARES
Twiggy (La Brindille), de Emmanuelle Millet. França, 2011, HD, colorido, 85 min, ficção
Quando menos se espera eis que surge mais uma obra para fazer constatar o quanto franceses podem ser pedantes e inconsequentes dentro de modos de comportamento que lhes parecem sempre os mais corretos. Vale dizer que a civilização deles costuma ser taxada – quase sempre muito justamente – por esnobes e tremendamente recheio de dramas pessoais: pensar em arranjar confusão (em discussão) por um quase nada, como se fosse de procura pelos em ovos o que se fala aqui, automaticamente destaca na mente a figura de algum nascente do país gálio.
Mais especificamente no quesito cinema, quase conseguiram soterrar a tradição de local onde nasceram dos melhores filmes, a melhor escola, uma revolução no modo de fazer crítica e entender a arte, e com nomes que ficaram definitivamente marcados na história. Isso ocorreu durante um hiato bem mais do que decano (algo que se situou entre parte do final dos 70, indo pelo decorrer de tempos quase sempre muito ruins até metade dos 90), quando produções retratando o comportamento ruim padrão de uma classe média, blasé, incomodada com aqueles pelos, e que se via discutindo seus problemas menores através de um cinema que abdicava da tradição inovadora e ousada, com a pose superior que não lhes caberia. Foram muito comprometedores aqueles tempos para o cinema do país – algo que passou a ser contornado por alguns diretores mais recentes, e pelo reassomar de alguns outros mais antigos, nos últimos anos.
E o que faz Emmanuelle Millet, com esse seu Twiggy (foto), senão retomar o instantes frágeis que debilitaram a imagem importante do cinema do país, com técnica de confecção acomodada (se bem que tentando se vender como importante – percebe-se que há a tentativa de fazê-la parecer diversa do cinemão na secura dos cortes, na ausência de trilha mais dramática, no modo de atuações blasés, tanto quanto nota-se que há nesses procedimentos muita artificialidade, que passa bastante do que se poderia intuir inovador, ousado, ou “somente” muito bem feito)? Pior: trazendo para a tela uma história que tenta vender desgraça e “periferia” humana que está bastante distante do que são as verdadeiras periferias humanas do lado de cá, ou do inverso para acolá, do planeta; imaginado uma personagem que, sob pretexto de representar fatia de pensamentos que descartam as possibilidades da acomodação institucional familiar em favor de projetos de vidas pessoais ou ideológicos, é caricatura de garota mimada, que já teria tomado rumos mais importantes mesmo se tivesse levado algumas broncas na vida; e, ainda mais, intrometendo dentro do trabalho uma falsa secura no modo de ser dos seus, tenta levá-lo a instantes de catarse emotiva e emocionante.
O que resultou disso tudo foi um filme que parece retrocesso aos tempos de vacas magras de pensamento e ideias, e que parece “se acreditar” (ou finge, tentando enganar aos outros) como uma verdade de dramas humanos inquestionável, contada com a excelência estética (ou técnica) que na realidade não tem.
OLHARES BRASIL – Curtas (programa 1)
Entre Nós, Dinheiro, de Renan Rovida. Brasil, 2011, HD, colorido, 25 min, ficção
É raro se pensar em filmes nos dias atuais que saiam atacando aberta e quase puerilmente o capitalismo – o sistema, seus malefícios, suas opressões… Entre Nós, Dinheiro segue essa trilha, sendo criado por situações que extrapolam o comportamento “padrão”, para recriar estilo de cinema que se serve das sensações para avacalhar propositalmente o tema abordado e atacado. Tal atitude de Renan Rovida consegue criar certa simpatia para a proposta: principalmente por despregar seu trabalho do usual, que imprime seriedade demais quando são tocados temas mais complexos, fazendo-o calcado em produções nossas mais de caráter exagerado e chanchadesco.
Se o filme se sustentasse totalmente dentro dessa premissa de referência,seria mais bacana,mas, paralelamente, há muito mau trato aos mecanismos, e o que se vê na tela acaba por chocar por algo de falta de qualidade visual (seria proposital?). A câmera que circula ininterruptamente é manuseada de forma quase tão juvenil quanto a proposta: mas, enquanto pode-se ou não aceitar idealismos, não é possível ver o veículo para tal explanação (o cinema, afinal) tão mal ajambrado: novamente perguntando se não seria fruto da proposta tal ação. Mal ajambramento que se estende, atingido pela complexidade de uma edição fraca, pelo desempenho estranho de alguns personagens, pela crueza (desleixo) no trato do cenário… Ou não?
Dona Sônia Pediu uma Arma para Seu Vizinho Alcides , de Gabriel Martins. Brasil, 2011, HD, colorido, 18′, ficção
Mais um filme do – também crítico – Gabriel Martins. Mais um filme que não deixa dúvida alguma quanto à sua capacidade de concretizar e finalizar cinema com o mesmo bom conhecimento teórico que sempre demonstrou em textos, e que já consegue repetir atuando atrás das lentes. A criação de Dona Sônia Pediu uma Arma Para Seu Vizinho Alcides é tão complexa e elaborada como o título sugere: com várias fazes, seu ritmo “descontínuo” (no sentido de não se entregar como obra que toma um padrão narrativo para contar sequências de modo linear e mastigado) revela quase que esquetes dentro de um mesmo aglomerado,e com a mesma história pilar para conduzi-los, para manter uma linha de ligação.
Recheado de referências a estilos, Gabriel monta seu painel, hora com padrões de rigor máximo nas imagens captadas (planos fixos e cortes secos), hora com ritmo que poderia remeter a histórias contadas em filmes ou programas policiais, hora por imagens antigas (num truque em que utiliza momentos de arquivo pessoal – sem saber se há algum vestígio de verdade próxima a ele na história de um assassinato) que complementam uma sequência de padrão emotivo. Para ajudar a criar elo nas diferentes opções de ritmos e imagens, uma interessante narração “off” indica com mais clareza por onde o filme está caminhando (que em outros trabalhos, por vezes, serve de muleta, mas aqui funciona como mais um elemento), até se chegar ao final totalmente inusitado, de desfecho estético perfeito (mais referências embutidas nesse momento), mas que pode deixar dúvidas em quem não conhece seus gostos cinematográficos. Se é de competência que falamos, eis um muito bom exemplo.
Assunto de Família , de Caru Alves de Souza. Brasil, 2011, HD, colorido, 13 min, ficção
Com Assunto de Família a diretora Caru Alves faz notar que sua forte ligação ao curta-metragem (filha de Tata Amaral, das responsáveis pelo início do boom no assunto já há mais de duas décadas) se manifesta de modo constatável pela facilidade com que ela transita por vários aspectos caros especificamente a quem “manda” no set de filmagem. Mas sabendo que nem só de genes se constrói uma carreira, e pensando-se que há muito de atitudes particulares dela, vale notar a boa qualidade obtida na captação e idealização das imagens, com um cuidado no “olhar”, que parece sim coisa herdada por carga genética – pensando-se nela com estreante na direção de um trabalho ficcional -, mas que seria impossível “só” com essas qualidades inatas.
No curta, não dá pra se colocar em dúvida que a luz crua e natural (evidente esforço de trabalho, não natural – os trabalhos “não naturais” são os responsáveis pela qualidade de um bom cinema, não o acaso) que chama atenção no decorrer de toda a história de uma família com seus dramas interiores, vivendo “às margens” do minhocão, represente seu grande achado. Conseguir adequar a luz que toma “rumos” desvirtuados entre aqueles complexos de cimento (os prédios atravancando o horizonte, com a pista quase à altura das cabeças) ao que se deseja quando finalizado o processo de edição, demanda esforço e conhecimento de causa.
Porém, apesar desse ótimo resultado técnico/estético, que acaba refletindo na excelência do total pictórico do filme (alie-se boas tomadas, e câmera segura), o próprio minhocão (aliado nos quesitos técnicos) toma para si um tanto de ar de vilão para o obtido na essência do contado: que oferece uma história calcada em alguns modismos fáceis, utilizados à exaustão por parte da geração de realizadores das grandes urbes. Tais modismos recaem invariavelmente em tratar grandes setores da sociedade como extremamente doentio (até existe muita doença social, mas parece fácil criar em cima disso quando elevado ao cubo), principalmente quando agem contra segmentos específicos.
Mesmo em se sabendo que algumas minorias recebem tratamento, no mínimo, desprezível por parte de “setores” da sociedade, o fato de utilizar a “evidente solidão concreta” que remete a figura do elevado e dos prédios deteriorados (como regiões de casas esfaceladas em outros locais, ou postos de gasolina em beira de estradas) em seu entorno ao imaginário um tanto atento do espectador, gera facilitação de procedimento: “sob a casa podre, mais fácil a podridão acolhida”. Que aditada por figuras um tanto fortes nas tintas de suas composições (mas fracas em credibilidade, por parecerem exemplos retirados de alguma cartilha que dita gêneros: dessas pessoas doentes, ou dos oprimidos por elas), sem nuances mais detalhadas, acaba por relegar a um segundo plano as maiores virtudes do trabalho.
Há público e espaço para tais modelos de filme, que acabam recebendo louvações justamente por serem bem concretizados. Mas deveria haver mais atenção, ou disposição (ou percepção de que há mais variantes no comportamento e modo de agir), para que a capacidade evidente na maneira de realização não se deixe ser atrelada ao que parecem alguns ditames inquestionáveis
Na Sua Companhia, de Marcelo Caetano. França, 2011, HD, colorido, 85 min, ficção
Marcelo Caetano está cada vez mais engajado na coluna dos que fazem de seu cinema razão de defender bandeiras – justo. Faz isso novamente aqui, em Na Sua Companhia, e parece que percebeu definitivamente a arte como uma ferramenta para manipular – ou um veículo para divulgar – o tema, com a intenção de criar marca definitiva e forte na retina. Ao abordar a relação de um casal homossexual (que vai do profundo dos desejos mais interiores – nada fáceis, que abarcam situações de total desapego da “normalidade” social -, ao momento em que se a normalidade volta à tona: quando se abandona o poço protetor/excludente para a socialização numa festa), de modo bem diverso do quase lúdico Bailão (seu curta anterior), aposta visceralmente no choque das imagens e dos comportamentos como ao que deverá abrir os serviços, para que sua nova defesa da causa caminhe.
Talvez o filme incite a curiosidade entre se saber se esse chocar está ali para perturbar mesmo, ou se é truque quase pirotécnico. Pois, ao iniciar (os dois envolvidos são garotos de programa – ou algo similar), é insinuada a exibição do pênis de um, enquanto há o elogio ao corpo sem pelos, ou mais à frente, quando acontecem cenas de relações profissionais, quando sente-se que o trabalho não irá aliviar e servirá de peça quase política para se contar que há outros desejos e outros modos de afeiçoamento: isso choca. Por outro lado, quando são colocados sutis panos sobre os órgãos dos que acabaram de manter uma artificial relação,quando se “surrupia” luminosidade para que o corpo seja sombra, passa-se à sensação de que o chocar, ou mesmo é parte de um jogo, ou de que houve pudor onde talvez melhor não.
Sim, não seria de se questionar caminhos e intenções de qualquer diretor que seja sobre suas opções na hora do filme montado: e em se pensando assim, aceita-se o cinema como o trabalho dele, e percebe-se que há novamente um trato raro com as especificidades da construção. Sim, se é de cinema que se fala – e Marcelo tem demonstrado que sabe do assunto -, o filme é para lá de ajustado e bem solucionado. Mas relembro de Bailão, relembro o mesmo bom trabalho na arte, e não sinto que aquele tenha necessitado de “truques” ou “situações mais assertivas” para defender sua causa: o que não dá para se ter certeza nesse, que “ameaça” ostensivamente e recua. Defender bandeiras (quaisquer que sejam) ultrapassa a arte, e deve ser ato tão crível quanto o cinema que se entrega belo e pronto.
OLHARES BRASIL
Estradeiros, de Sergio de Oliveira, Renata Pinheiro. Brasil/Argentina, 2011, HD, colorido, 79 min, documentário
Esse filme já havia tido um pré-preparo no curta Epox – na época, 2009, ainda com Sérgio Oliveira trabalhando solo -: opinião sem saber a versão oficial dos realizadores, agora em dupla, obviamente. Olhar pessoas que vagueiam pelo mundo com a intenção (desejo) maior de se permitirem não compactuar com o que o sistema capitalista engendrou pelos caminhos da história como modos de sobrevivência e de viver sob comportamentos sociais determinados, como fizeram ele e Renata Pinheiro, remetem-nos a perceber o quão ampla e idealista pode ser a opção de um monte dessas pessoas que vemos nas ruas fazendo arte em busca de algum trocado.
Ao abordar um bom montante de seres que evitaram estabelecer-se, fixar-se, conscientemente, para que pudessem aproveitar suas vidas da maneira mais livre possível – algo continuado da revolução empreendida pelo movimento hippie, que já era consequência de alguns trechos dos pensamentos beatnik -, conseguiram esclarecer origens e razões motivadoras. Com elaborado trabalho de campo – sabiam o terreno que pisavam -, e quase estonteante (no melhor dos sentidos) trabalho de fotografia de Pedro Urano, acompanharam diversos grupos, por diversas regiões da América do Sul, e cumpriram uma função quase didática: sim, falar em didatismo pode parecer assustador, mas é um didatismo no sentido de trazer luzes.
Fica-se sabendo que argentinos, brasileiros, colombianos, norte-americanos encaram as estradas com o prazer de quem faz disso seu modo de vida. Não descartam a formação de famílias nesses instantes, e parecem conscientes quanto às opções adotadas: não há uma declaração no doc que revele descontentamento (não dá para saber se por opção dos diretores, e se for, opção respeitável, já que cabe a eles determinarem os rumos que seu trabalho deveria tomar, desde que honestamente e sem truques), e o acompanhar suave de sua existências revela-os conscientes politicamente, com noção de economia de sobrevivência, uníssonos no distanciamento dos sistemas oficiais, mas até discordantes em opiniões particulares e até por alguns comportamentos. Revelam-se com maticidades, não um meio tom acomodado, tendo como elemento mais unificador o fato de gostarem das estradas, dos caminhos: um não parar jamais.
O filme é feliz para mais ainda, quando consegue contrapor as opiniões e quando sai à cata dos atos que as farão ilustras e mais críveis: segue uma turma que se alimenta com os “restos” de comida dispensados pelo sistema capitalista (mercados, por exemplo), observa alguns outros praticando religiosamente seus malabarismos (dos que se apresentam nas esquinas), vê outro montando suas barracas e trabalhando suas bijuterias… O filme é mais do que feliz ao observar via lentes nada acomodadas todo os trechos por onde esses estradeiros passaram, e suas origens: toda a primeira parte é de dinâmica rara, com câmera que subverte e brinca com o eixo (metáfora à estranheza deles no mundo comum); com intervenções sobre pedras, sobre trechos, trazendo imagens rupestres para compor o quadro por alguns bons instantes; com ruídos e adições sonoras que potencializavam movimentos contínuos e condutores…
Talvez haja uma certa dispersão que o afaste um tanto da proposta, próximo do final, para que se fale mais genericamente dos países da América e sobre temas não tão específicos. O foco fica mais solto, por uns instantes, dentro de um trabalho que se conduz basicamente por vários tipos de rigores. Mas é passageiro e não comprometedor esse instante.

