PAULÍNIA 2011: UM BALANÇO MUITO PESSOAL.
Saio do 4º. Festival de Paulínia com a alma lavada. Em uma semana, assisti a – digamos – uma meia dúzia de filmes brasileiros de grande qualidade. Parece pouco? Talvez para você, jovem leitor, já acostumado com este cinema brasileiro pós-94, um cinema que nos últimos 18 anos ganhou o Urso de Ouro duas vezes, teve um punhado de indicações ao Oscar, bateu recordes históricos de bilheteria, e demonstrou diversidade ao produzir algo em torno de 80 longas a cada ano.
Para você, jovem leitor que não tinha idade para ver “Central do Brasil” no cinema, talvez pareça pouco assistir a uma meia dúzia de filmes brasileiros de grande qualidade em apenas uma semana. Pra mim não é.
“Virei” crítico de cinema no finalzinho dos anos 70. É, naquela época as pessoas “viravam” críticos de cinema. Não havia nenhum curso ou estudo regular para esta profissão. Se é que crítico de cinema é uma profissão, mas isso a gente discute outra hora. Naquela época, a expressão “cinema brasileiro” tinha tanta credibilidade quanto, sei lá, “eletrônica de alta precisão boliviana”. Vivíamos os últimos momentos da pornochanchada, e para o público em geral “cinema brasileiro” era sinônimo de palavrão, mulher pelada e filme tosco.
As primeiras videolocadoras sequer ofereciam produto nacional, e quando o faziam, alertavam o freguês, sussurrando: “Este filme que o senhor está levando é brasileiro, tudo bem?”. Passei por isso mais do que uma vez.
Nos anos 80, já na TV Bandeirantes, propus à minha chefe que realizássemos a cobertura do Festival de Brasília, feito inédito na emissora. Ela a princípio gostou da idéia, até tomar contato com o press-release do evento. Visivelmente irritada, ela me chamou à sua sala, atirou o release sobre a mesa, e exclamou entre raivosa e indignada: “É este o Festival que você quer cobrir? Você leu direito este release? Só tem filme brasileiro!!”. E vetou a cobertura. Fui por conta própria.
No primeiro ano da década de 90, todos sabem, o então presidente Collor quase matou o cinema brasileiro, e a nossa produção caiu para um ou dois longas por ano. O baixo astral foi total. O Festival de Gramado tornou-se internacional porque era impossível juntar 4 ou 5 longas brasileiros para compor o evento. Pelo mesmo motivo, Brasília recorria a sessões “comemorativas” do tipo “30 anos de O Pagador de Promessas”. E exibia filmes de qualidade inominável para que o Festival não morresse. Foi marcante a noite, em Gramado, em que o homenageado Grande Otelo começou a cantar uma marchinha de carnaval para espantar a tristeza e o baixo astral. Sim, mesmo com a contrariedade do momento, naquela época Gramado ainda preferia homenagear figuras do cinema como Grande Otelo, e não das capas de revistas de falsas celebridades, como a Xuxa.
A produção cinematográfica do país chegara ao fundo do poço, naqueles primeiros anos da década de 90. Mas, tudo começa a mudar a partir de “Carlota Joaquina”, e o resto da história acho que todos conhecem.
Por isso, repito, saio do 4º. Festival de Paulínia com a alma lavada. Um Festival que começou sua mostra competitiva com o emocionante “Uma Longa Viagem”, documentário onde Lúcia Murat foi buscar um personagem incrível dentro de sua própria casa, e através dele teceu um fascinante painel de uma época libertária que talvez nossos jovens leitores não tenham sequer ouvido falar.
Depois veio “O Palhaço” de e com Selton Mello, uma singela preciosidade que arrisco a classificar como “obra prima”. Em seguida Paulínia nos apresenta “Meu País”, de André Ristum, filme dos mais competentes tanto em sua bela técnica como em sua fortíssima carga dramática e emotiva. Filmaço.
Não bastassem estes exemplos, o Festival ainda exibiu “Trabalhar Cansa”, uma crítica ao mesmo tempo feroz e sarcástica contra a podridão dos valores sociais de uma classe média urbana que se vê mergulhada num horror literal e simbólico. Outro filmaço.
Também dos mais interessantes, “Ibitipoca, Droba Pra Lá” cumpre com qualidade sua função documental de mostrar um pedaço de Brasil que poucos conhecemos. E o evento é fechado com chave de ouro com “A Febre do Rato”, do sempre polêmico Cláudio Assis, que escancara num belíssimo preto e branco a luta de um poeta de rua pela liberdade e pelo libertário “direito de errar”.
Ainda é possível citar “Onde Está a Felicidade?”, de Carlos Alberto Ricceli, filme que eu não gostei, mas que demonstrou ter conseguido um fortíssimo diálogo com o público, fator importante para qualquer cinema que se pretenda indústria.
Na minha visão pessoal, o melhor filme do Festival foi “Febre do Rato”. E o que eu mais gostei foi “O Palhaço”.
E quanto aos filmes de pouca ou nenhuma qualidade? Meu caro leitor, aos 52 anos, sendo 31 deles de crítica cinematográfica, e feliz de ter visto tanto filme bom em apenas uma semana, não tenho tempo nem disposição pra ficar falando de filme ruim. Só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder com aquilo que não acarinhe meu coração.
O 4º. Festival de Cinema de Paulínia foi ótimo. Que venha a39a. edição de Gramado, agora em agosto.

