PROVOCATIVO, “GAROTA INFLAMÁVEL” MORDE E ASSOPRA.

Por Celso Sabadin.

O filme começa com uma intrigante e perturbadora metáfora: mesmo se um formigueiro se incendeia, as formigas continuam trabalhando, alheias a tudo, até a morte. Impossível não relacionar tal ideia à nossa sociedade atual. É neste contexto que a jovem Julie (a russa Natalia Belitski)  já decidiu o que fazer na sua vida: nada. Primeiro porque não adianta. Segundo porque, como herdeira, ela não precisa. Ou pelo menos acha que não.

Ao se rebelar contra a hipocrisia social, a garota se assume marginal – pelo menos no olhar da mediocridade do senso comum – optando por vestir o rótulo de desajustada mental a lutar contra ele.

A roteirista e diretora italiana radicada na Alemanha, Elisa Mishto, já havia abordado o tema da loucura em seu primeiro longa, o documentário “Gli Stati Della Mente”. Agora, em sua estreia no longa ficcional, Mishto retoma o tema relacionando-o à sempre polêmica questão da desmistificação da maternidade. Afinal, o conflito central da trama se baseia nas relações de harmonias e ruídos entre uma personagem perturbada pela sua condição de filha “abandonada”, e outra não menos perturbada pela sua condição de mãe “abandonante”. A diferença entre ambas é que uma delas – pelos menos momentaneamente – ainda se deixa levar pela ilusão que nos é eternamente vendida da recompensa da felicidade através do trabalho. A tal da formiga no formigueiro em chamas.

Ainda que provocativo e levantando temas dos mais incitantes, “Garota Inflamável” parece, em última instância, não acreditar em suas próprias premissas, entregando uma protagonista potencialmente libertária aos mecanismos moralistas que – sugere a autora – merece prevalecer.

Coproduzido entre Alemanha e Itália, “Garota Inflamável” chega aos cinemas brasileiros nesta quinta, 14/07. Vale pelas discussões e provocações que estimula.