REVISTA FILME CULTURA DISCUTE A LATINIDADE DO CINEMA BRASIEIRO. VEJA GRÁTIS EM PDF.
Desde sempre, o pertencimento ou não do Brasil à comunidade latino-americana foi motivo de controvérsia entre intelectuais e políticos. A começar pelo fato de ter sido o conceito de “América Latina” uma invenção francesa dos tempos de Napoleão III para justificar o imperialismo francês no México. Com o passar dos séculos, a ideia de um latino-americanismo passou a se confundir com os contornos de uma América hispânica, à qual, teoricamente, o Brasil não pertenceria.
Raros foram os pensadores que, como Gilberto Freyre, afirmaram nossa identificação com a cultura hispânica, para além do dualismo histórico Portugal-Espanha. O fato é que, com suas maiores cidades voltadas para o litoral do Oceano Atlântico, uma formação cultural diferenciada e um idioma próximo, mas não idêntico ao espanhol, falado nos seus vizinhos da América do Sul, o Brasil desenvolveu relações de imaginário mais afinadas às culturas europeia e norte-americana. Isso sem falar nas dimensões do território, que geram uma espécie de consciência continental.
O fenômeno da globalização veio tornar ainda mais ambígua essa relação, dissolvendo noções de fronteira e fomentando em muita gente a rejeição de um pensamento voltado para identidades nacionais ou regionais. No cinema, passados vários ciclos de aproximação com o ideário e as produções dos outros países latino-americanos, vivemos um período de novas tentativas. Frequentes coproduções, alguns eventos especializados e certos vínculos pessoais tentam minimizar o abismo mais ou menos costumeiro entre “nós” e “eles” – para usar os pronomes que frequentemente enfatizam essa distância.
Na edição 57, lançada semana passada, a revista Filme Cultura saiu no encalço de traços de latinidade no cinema brasileiro de hoje e de ontem. Nossos redatores e colaboradores se debruçaram sobre a maneira como esses traços se manifestam na dramaturgia dos filmes, nas relações da indústria e do mercado, nos paralelos entre movimentos históricos, na convergência de projetos autorais e de pendores técnicos. Examinamos exemplos de como o nosso cinema representa seus vizinhos e de como é visto por eles.
Há lugar aí para o cinema político e o militante, o melodrama, o realismo fantástico, o experimentalismo poético e o espetáculo de massa. Olhando para trás e para o presente, constatamos, enfim, que não estamos, literalmente, nem tanto ao mar nem tanto a terra. Se não estamos integrados de modo pleno, tampouco nos encontramos drasticamente separados do que poderia se chamar de uma cinematografia latino-americana. Nosso sangue cinematográfico tem bem mais componentes latinos/hispânicos do que supõe o senso comum.
Em tempos de redesenho de prioridades geopolíticas e intenso intercâmbio transnacional na cultura, avaliar nossa latinidade no cinema pode ser, quando nada, uma eloquente ilustração de toda a conversa.
Todas as edições podem ser “folheadas” ou baixadas em PDF através do site www.filmecultura.org.br. Lá constam também os pontos de venda da revista impressa, assim como matérias exclusivas das edições online.

