SE O MONTADOR DE “O REI DA INTERNET” FOSSE PAGO POR CORTE FEITO, ESTARIA MILIONÁRIO.
Por Celso Sabadin.
Ninguém me disse; eu contei: os primeiros dois minutos de “O Rei da Internet”, tirando os créditos iniciais das produtoras, tem 100 cortes. Ou seja, a duração média de cada plano é de 1,2 segundo. Alguém poderia argumentar que se trata de um recurso bastante comum para dar maior dinamismo ao começo de um filme, para adrenar e prender a atenção da plateia logo de cara. Verdade. Mas e se eu te disser que – com alguma oscilação – o ritmo do filme permanece assim até o seu final?
E tem mais: cada ação, cada reação, cada informação é pontuada por uma música que entra bombando na cena. Tudo regado a uma gigantesca narração em off – que dura da primeira á última cena – na qual o protagonista não só fala tudo o que a gente já está vendo que está acontecendo, como também já adianta o que vai acontecer, na linha do “mas ninguém imaginava que….” e fala o que ninguém imaginava.
Bom, saí do filme exausto, com a sensação de ter assistido a um videoclipe de ininterruptas duas horas e quinze minutos de duração.
Mas a boa notícia é que a história de “O Rei da Internet” é empolgante, e foi baseada no caso real de Daniel Nascimento, interpretado por um ótimo João Guilherme, hacker brasileiro que ganhou notoriedade nacional na época da internet discada.
Não sei vocês, mas eu não resisto a uma boa trama na qual o protagonista (ou grupo de protagonistas) se dedica a empreender golpes milionários, por mais politicamente incorreto que possa ser (afinal, cinema é ilusão, não é?). De “Onze Homem e um Segredo” a “Nove Rainhas”, de “Prenda-me se For Capaz” a “O Lobo de Wall Street”, eu me divirto muito com todas. Aliás, é bastante visível a influência estilística de “O Lobo de Wall Street” em “O Rei da Internet”.
Obviamente, o aspecto ético sempre vem à tona: é válido e lícito romantizar o crime? Não tem como negar que “O Rei da Internet” faz isso. E muito bem. O protagonista é extremamente carismático, as vítimas de seus golpes jamais são mostradas, e o roteiro ainda cria um pai pouco acolhedor (Emílio de Mello, também ótimo) para tentar “justificar” as carências do garoto. Tal discussão ética sempre vem à tona, desde a época dos filmes de gângsteres que a Warner produzia nos anos 1930 para exorcizar nas plateias do pânico provocado pela quebra da bolsa de Nova York, passando pelo exemplo clássico de “O Poderoso Chefão”. Não é uma discussão que eu vá entrar agora, mesmo porque continuo zonzo com a quantidade de estímulos audiovisuais que “O Rei da Internet” me causou.
Vale ver? Vale. Mas acho também que antes da projeção deveria ter aquele aviso que diz “Este filme contém sequências de luzes intermitentes que podem afetar espectadores propensos a epilepsia fotossensível ou outras fotossensibilidades”. Luzes, sons e velocidades. Se o editor do longa fosse pago por corte, estaria milionário.
Com direção de Fabrício Bittar e roteiro do próprio diretor com
Vinícius Perez, “O Rei da Internet” ainda tem no elenco Marcelo Serrado, Kaik Pereira, Adriano Garib, Caio Horowicz, Miguel Nader, Enrico Cardoso, Clarissa Müller, Bia Seidl e Débora Ozório, entre outros.
A estreia em cinemas é nesta quinta, 14/05.

