TIRADENTES 2013: RELAÇÃO DE CONFLITO ENTRE PAI E FILHA MARCA O ÓTIMO “OS DIAS COM ELE”.
Em busca de antigas memórias vividas (ou não) de sua infância, uma jovem cineasta faz um documentário com seu próprio pai. Durante o processo, ela percebe como este resgate pode ser doloroso e conflituoso.
A sinopse acima poderia render um ótimo filme de ficção. Não é o caso: “Os Dias com Ele” é um emocionante documentário, seguramente um dos melhores longas desta 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
A jovem cineasta em questão é Maria Clara Escobar, e o pai documentado é o professor, escritor e dramaturgo Carlos Henrique Escobar. Não se trata de um pai convencional. Logo na primeira cena, ele já conta rápida e cruamente sua trajetória de menino de rua, fugido de casa aos 9 anos de idade, e assume jamais ter se sentado num banco de escola. Mas atenção: parafraseando Fellini (talvez até inadvertidamente), ele também afirma que o filme lhe dará a oportunidade de contar muitas mentiras.
O que vemos a seguir é um forte embate entre o documentado e a documentarista, que também abre o microfone para si mesma. Ao pai, Maria Clara tenta vender a ideia que o filme é sobre a História do Brasil da época dele, mas Carlos Henrique percebe a armadilha: “É um filme sobre mim ou sobre você?”, pergunta.
É um filme sobre tudo (política, ditadura, vida), mas que encontra seu eixo na tumultuada relação pai ausente/filha abandonada. Percebe-se que ela busca algum tipo de redenção através das imagens e dos resgates históricos. Uma redenção que não virá. Muito pelo contrário: autoritário, Carlos Henrique tenta o tempo todo dirigir o filme da filha. Dá ideias, impõe sugestões. Em determinado momento, diz, categórico: “Embora eu tenha filhos, a minha maior felicidade, a minha única felicidade, foi no dia em que eu ganhei os meus gatos”. Se fosse meu pai, o filme teria terminado ali, pois certamente eu teria quebrado minha câmera na cabeça dele.
A diretora fez a ótima opção de deixar o objeto do seu documentário tomar conta do filme. Carlos Henrique Escobar provoca indignação, tem boa oratória, é ladino. Um personagem fácil de odiar. Maria Clara abre a câmera para ele, corta pouco, resiste à tentação fácil de pontuar o filme com álbuns de família. O resultado chega a ser perturbador. Imagina-se (é o máximo que se pode fazer) o que uma filha não teria passado nas mãos de um pai como este. O tom do filme é de um eterno conflito preso na garganta.
E o plano final, que obviamente eu não vou contar, é genial.
Celso Sabadin viajou a Tiradentes a convite da organização do evento.

