WAGNER MOURA E SARGENTO GETÚLIO: FIM DA ERA CARAS EM GRAMADO?

O ator Wagner Moura disse muitas coisas interessantes, divertidas, sérias e importantes, quando foi homenageado aqui no 41º Festival de Cinema de Gramado. Mas uma delas ficou na minha cabeça: que esta era a primeira vez que ele vinha à cidade. Como assim? Atuante no cinema desde 1998, um dos atores mais conceituados do país, protagonista do filme de maior sucesso de bilheteria do cinema brasileiro, e só agora, depois de 41 edições, Wagner Moura colocava seus pé no palco mais famoso da produção audiovisual nacional? Por que só agora?

A resposta não é difícil. Seguinte: quando Gramado, vários anos atrás, deixou o cinema em segundo plano e passou a privilegiar o Castelo de Caras, o Festival deu um tiro no próprio pé, e afastou daqui os produtores e diretores do cinema brasileiro de qualidade. Com seu tapete vermelho povoado por estrelitas de terceira categoria, tipo elenco de apoio de Malhação, Gramado caiu num ridículo profundo, e pouco ou nada do que se projetava por aqui merecia ser chamado de “Cinema”. A imprensa bem que alertou. E por várias vezes. Gramado ficou conhecido como o único festival do Brasil que tinha mais gente badalando no saguão que vendo filmes na sala. Até a qualidade das poltronas da sala de exibição era insuportável (dizia-se, maldosamente, que isto acontecia porque ninguém queria ver os filmes mesmo…).

Uma fonte segura me confirma que, numa reunião realizada há alguns anos na Prefeitura de Gramado, quando este problema foi levantado, alguém da cúpula do poder teria dito: “Cinema não tem importância. O importante é que a venda de chocolates tem subido, o que mostra que estamos no caminho certo”.

Enquanto esta tendência idiotizante se arraigava profundamente nas raízes do Festival, o cinema brasileiro renascia. E clamava por uma vitrine de qualidade para os filmes, produzidos cada vez em maior número e melhor qualidade. Gramado, ao invés de se apresentar como esta vitrine, preferia construir mais e mais estandes de produtos de luxo em seu festival. E a selecionar seus filmes através de um único critério: “Há no elenco algum ator global que possa agitar o tapete vermelho?”. Resultado: nos anos 90, a maioria dos produtores e diretores de qualidade preferia não inscrever seus filmes aqui. Ser exibido em Gramado passou a ser uma vergonha para o cineasta sério, e quem tinha filme bom para mostrar passou a recorrer aos festivais internacionais.

Era melhor perder em Berlim que ganhar em Gramado. Por isso Wagner Moura, que iniciou sua carreira cinematográfica nos anos 90, nunca tinha pisado por aqui antes. Porque felizmente, existe agora o que não existia antes: uma visão cinematográfica do evento. Existe, desde o ano passado, uma preocupação maior pela qualidade dos filmes, e já se percebeu que o mundo não vai acabar se o tapete vermelho não ficar apinhado de gente gritando para o famoso da hora.

Neste sentido, também é muito bem-vinda a homenagem que se faz este ano aos 30 anos do filme Sargento Getúlio, estrelado por Lima Duarte, que aqui saiu vencedor, na era pré-BBB. Este é o tipo de homenagem que cria o salutar elo entre a história do nosso cinema e as novas gerações, que mostra a quem chegou agora que o Festival já teve anos de glória, e que deseja recuperar a importância que teve no cenário artístico-cultural brasileiro. Pena que, por compreensíveis problemas de agenda, não é possível colocar sobre o mesmo palco os talentos de Wagner Moura e Lima Duarte. Pena que não se possa unir numa mesma entrevista coletiva um Hermano Penna e um Bruno Safadi, ou um Hilton Lacerda, como que cristalizando a união entre os jovens e os consagrados. Pena, inclusive que Sargento Getúlio não seja exibido na íntegra, aqui na homenagem. Mas tudo bem. São detalhes menores dentro de uma proposta maior: fazer com que Gramado retome seu rumo, apagar a má impressão de um festival que em algumas tristes oportunidades foi comandado por pessoas que achavam que Truffaut era uma espécie de chocolate.

Que venham mais e melhores filmes, que sejam homenageadas as pessoas que realmente tenham contribuído para o nosso cinema, e que o Kikito, aos poucos, volte a ser aquele prêmio realmente de peso e importância incontestáveis. Quanto mais isto acontecer, mais os grandes cineastas retornarão a este palco, trazendo suas melhores obras.
E talvez venha o dia em que ganhar em Gramado volte a ser mais importante que perder em Cannes.

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Celso Sabadin viajou a Gramado a convite da organização do Festival.