“CORPO DA PAZ” E SUA VIAGEM TEMPORAL.
Por Celso Sabadin, de João Pessoa.
Concorrente na mostra nacional do 20º Fest Aruanda, o paraibano “Corpo da Paz” seria mais um filme sobre a ditadura civil-militar-empresarial de 1964? Sim e não. “Sim” porque trama e personagens são movidos por este mote. E “não” porque “Corpo da Paz” está muito longe de ser “mais um” filme. Trata-se de uma grande obra sobre o período, que enfoca a ditadura com um olhar intimista e diferenciado, buscando um recorte dos mais importantes – e, infelizmente, ainda atualíssimo: a eterna briga pela nossa soberania.Pode-se dizer que a abordagem do assunto remete a “O Dia que Meus Pais Saíram de Férias”, por trazer o ponto de vista infantil. Estilisticamente, contudo, o longa consegue obter um forte efeito magnetizante, quase onírico, que me lembrou muito um dos meus cineastas preferidos: Alexandr Sokurov. Explicando melhor: quando eu vejo um filme de época feito pelo Sokurov, eu sempre acho que ele pegou uma máquina do tempo, foi ao passado, filmou, e voltou com o material. “Corpo da Paz” de meu a mesma sensação. O roteirista e diretor paraibano Torquato Joel deve ter voltado ao nordeste brasileiro dos anos 1960, e lá filmou a história de um agente estadunidense que – validado pela política anticomunista de John Kennedy – vem à sua colônia brasileira para estudar as melhores maneiras de explorar nossos recursos naturais. Com o aval e a admiração dos nativos entreguistas, of course.
Tal efeito hipnótico obtido por Torquato passa por diversos fatores que enriquecem seu longa: os enquadramentos inusitados e poéticos que remetem ao ponto de vista infantil, as estupenda iluminação e textura que mimetizam o visual de antigas fotografias em preto e branco esquecidas em algum armário do passado, os tempos estendidos de uma época na qual a pressa ainda não atingira os atuais níveis de insanidade, as intepretações minimalistas e realistas que colocam o espectador sempre lado a lado com os protagonistas, e principalmente a simplicidade quase árida de um cineasta que sabe que menos é mais.
Não por acaso, “Corpo da Paz” levou quatro prêmios no Festival de Brasília: Fotografia (para Rodolpho Barros), Edição de Som (para Bruno Alves), Trilha Sonora (para Haley Guimarães) e Direção de Arte (para Romero Sousa).
A programação completa do 20º Fest Aruanda está em www.festaruanda.com.br
Celso Sabadin viajou a João Pessoa a convite da organização do evento.

