“ENZO”, O FILME-TESTAMENTO DE LAURENT CANTET SOBRE A GERAÇÃO Z.

Por Celso Sabadin.

O pessoal mais conservador (que costuma ser também o mais mal-humorado) adora falar mal da Geração Z, geralmente argumentando que “eles não querem trabalhar”.  Pessoalmente, apoio esta geração, que está mostrando para nós, os mais velhos, que as atuais relações entre o trabalho e o capital estão apodrecidas, e precisam ser radicalmente transformadas.

Tudo isso pra dizer que “Enzo”, que estreia em cinemas nesta quinta-feira, 19/03, é um retrato bastante acurado da Geração Z. Até o nome do protagonista é certeiro, na medida em que Enzo acabou se tornando uma espécie de nome da moda dos adolescentes e jovens de hoje.

 

Aos 16 anos, Enzo (convincente estreia cinematográfica de Eloy Pohu) pode ter tudo o que desejar na vida. O mais novo dos dois irmãos de uma família de classe alta (até a renda mensal do casal é citada no filme), ele vive com os pais – compreensivos e acolhedores – em uma belíssima casa de frente para o mar. Mas, eternamente blasé, Enzo prefere ser aprendiz de pedreiro. Para construir algo mais duradouro que a própria vida, argumenta.

Logo se nota, contudo, que a opção do rapaz não é tão poética como possa parecer, e que na verdade ele se encontra naquela recorrente condição adolescente de não ter a menor ideia do que quer na vida. Seus conflitos internos são grandes demais para permanecerem internos.

Exemplar típico do cinema intimista de reflexão que os franceses sabem fazer como ninguém. No caso, os franceses e os belgas, pois “Enzo” é coproduzido pelos premiados irmãos Dardenne.

 

O laureadíssimo Laurent Cantet, Palma de Ouro em Cannes por “Entre os Muros da Escola”,  havia iniciado a direção de “Enzo”, ao lado do corroteirista Robin Campillo, mas sua morte prematura, em 2024, interrompeu o projeto, que foi assumido por Gilles Marchand e pelo próprio Campillo.

 

Sóbrio e impactante, “Enzo” compõe um retrato aguçado de uma situação geracional que silenciosamente se instala em várias camadas da sociedade, ligando um importante sinal que alerta para a necessidade de uma ruptura urgente.

 

Afinal, não dá para o pai de Enzo  (o sempre ótimo Pierfrancesco Favino) catar repetidamente as roupas que o filho joga no chão, colocá-las pacientemente na máquina de lavar, pra depois acusar o rapaz de ser mimado…..