A VIAGEM LATINO-SENSORIAL DE “A MENSAGEIRA”.
Por Celso Sabadin.
Acostumados que somos ao (geralmente estragado) paladar cinematográfico estadunidense, repleto daqueles roteiros estereotipados contrapondo puerilmente as visões simplistas do bem contra o mal, temos todos nós uma dificuldade natural em degustar, digamos, pratos de sabores mais sofisticados. Quem nunca se confrontou com aquele tipo de espectador que reclama que em determinado filme “não acontece nada” apenas porque o sujeito não degustou nenhuma cena de explosão, tiroteio ou perseguição? É o custo da colonização cultural.
“A Mensageira”, por exemplo, que estreia em cinemas nesta quinta, 19/03, é um desses filmes em “que não acontece nada”. E é deliciosamente hipnotizante!
Acompanhamos em um artístico preto e banco o road-movie intimista e particular empreendido pela garota Anika (Anika Bootz) e seus avós Myriam (Mara Bestelli) e Roger (Marcelo Subiotto). A menina na verdade é o sustento da pequena família, na medida em que ela tem o especial talento de se comunicar com os animais, tanto vivos como mortos. Um talento, claro, que é transformado em sobrevivência financeira, através da venda de consultas mediúnicas para os donos de pets. O mercado deste trio rodante é o interior argentino, o que proporciona fascinantes momentos de pura contemplação, silêncios revigorantes e instrospecções quase espirituais.
Coproduzido por Argentina, Espanha e Uruguai, “A Mensageira“ tem roteiro do escritor Martín Felipe Castagnet em parceira com o próprio diretor do longa, Iván Fund, ambos argentinos.
O filme venceu o Urso de Prata – Prêmio do Júri no Festival de Berlim 2025, além de acumular outras premiações em eventos em Pequim (Melhor Atriz Coadjuvante para Mara Bestelli, Melhor Fotografia e Melhor Contribuição Artística), San Sebastián e Viña del Mar 2025, entre outros.
Quem dirige
Iván Fund (San Cristóbal, Argentina, 1984) é um cineasta argentino que atua em múltiplas funções em seus projetos (roteiro, produção, fotografia e montagem). Seu longa Los labios (The Lips) foi selecionado para a mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes e venceu o Prêmio de Interpretação Feminina em 23 de maio de 2010. Em 2021, Fund teve a estreia mundial de Piedra noche (Dusk Stone) na mostra Giornate degli Autori do Festival de Veneza. Seu trabalho mais recente, The Message (El mensaje), passou pelo WIP Latam do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián em agosto de 2024, estreou na Competição Oficial da Berlinale em 18 de fevereiro de 2025 e conquistou o Urso de Prata – Prêmio do Júri em 22 de fevereiro de 2025.

