GRANDE VENCEDOR DE GRAMADO, “CINCO TIPOS DE MEDO” CHEGA AOS CINEMAS.  

Por Celso Sabadin.

Costuma-se chamar de “coral” aquele tipo de filme em que várias histórias aparentemente independentes umas das outras se cruzam, formando um mosaico de tipos e situações, e onde não há exatamente um protagonista. O cineasta Robert Altman era muito bom nesse estilo de construção narrativa. “Cinco Tipos de Medo”, estreando em cinemas nesta quinta-feira, 09/04, é mais ou menos um filme coral. E eu digo “mais ou menos” por causa de um “detalhe” fundamental: aqui, temos, sim, um protagonista que comanda a ação e salta aos olhos: a violência urbana.

No roteiro de Bruno Bini, também diretor do filme, Murilo (João Vitor Silva), um jovem músico que sobreviveu à internação por Covid, se apaixona por Marlene (Bella Campos), a enfermeira que o atendeu no hospital, sem saber que ela está presa a um relacionamento tóxico com Sapinho (Xamã), o líder da criminalidade local. Suas histórias se entrelaçam com as do advogado Ivan (Rui Ricardo Diaz), da policial Luciana (Barbara Colen) e várias outras, em diferentes níveis de interdependência que é melhor não especificar, para não dar spoiler. Todas elas são – direta ou indiretamente – marcadas pela falência de uma sociedade na qual a fragilidade (ou mesmo inexistência) da justiça permitiu que as instituições se desmoronassem, abrindo espaço para a barbárie.

O filme acontece no Mato Grosso, mas vale para inúmeros lugares do Brasil e do mundo.

Com interpretações convincentes, ótimo nível de produção, e marcante credibilidade nas cenas de ação, “Cinco Tipos de Medo” vai muito além da exploração simplista de histórias policialescas, subgênero que tem sido exaustivamente explorado em séries de streaming. Pelo contrário: o minucioso entrelaçamento dos conflitos propostos pelo roteiro provoca o pensamento crítico sem fazer da violência um atrativo barato, mas expondo os mecanismos de sua construção e instalação estrutural na nossa sociedade que já se acostumou a viver na impunidade. Eventualmente um ou outro excesso de “coincidências” da trama poderá soar algo falso. Mas o que é de fato verdadeiro por aqui?

“Cinco Tipos de Medo” venceu quatro Kikitos (Melhor Filme; Melhor Roteiro; Melhor Montagem, para Bruno Bini; e Melhor Ator Coadjuvante, para Xamã) no Festival de Gramado.