“O CIO DA TERRA” E O FASCÍNIO PELO FÁLICO.
Por Celso Sabadin.
Eu e minha ignorância sudestina nunca tínhamos ouvido falar da “Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio”, que acontece há quase um século na cidade de Barbalha, Ceará. Num primeiro momento, o evento parece ser apenas mais uma daqueles belas e tradicionais manifestações religiosas que permeiam o Brasil, repleta de simbolismos e misticismos. Porém, o ótimo documentário “O Cio da Terra” – que estreia neste 31º Festival É Tudo Verdade – mostra que, no fundo, o pau é mais embaixo.
A festa consiste, primeiramente, na escolha da árvore ideal a ser derrubada. Ela deve ter algo em torno de 20 metros e seu tronco não pode ser grosso demais. Derrubado o exemplar escolhido, ele é carregado até um lugar próximo da cidade, onde haverá uma grande festa com muito forró, muito churrasco, muita bebida e muita gente. Tais preliminares duravam 15 dias, mas este período teve de ser reduzido pelo poder público porque tanta comemoração “gerava um impacto ambiental muito grande”, como diz uma das depoentes do filme. Ela também afirma que a restrição de dias não foi cumprida.
Terminados os festejos, o tronco é carregado por vários quilômetros e por centenas de homens aglomerados até a igreja de Santo Antonio, em Barbalha, onde servirá como o novo mastro de uma bandeira dedicada ao santo. Durante o trajeto, como parte do espetáculo, o pesadíssimo tronco é várias vezes propositalmente atirado ao chão, e quem estiver perto que pule pra se salvar. Tem gente que se machuca. Já teve gente que morreu. Os homens ensandecidos e não raro embriagados pulando e urrando em volta do grande pau compõem uma cena inacreditavelmente dantesca.
Entrevistados mais esclarecidos advertem sobre como o machismo intrínseco do evento acaba sendo um grande catalisador de episódios violentos na região. A fé transformada em fanatismo aliada à euforia exacerbada potencializada pelo álcool, mais o simbolismo fálico do tronco arremessado brutalmente ao chão em ritual empreendido exclusivamente por homens – tudo em nome de um santo dito “casamenteiro” – beira à mais fiel representação da bestialidade. Tudo sem falar na questão ambiental, já que o rito derruba pelo menos uma grande árvore a cada ano, algumas delas centenárias. Mas tudo é abençoado pelo santo padre.
Porém, o pior ainda estava para acontecer. Nos últimos anos, com a percepção de que o evento atraía uma quantidade significativa de participantes de toda a região, ele passou a ser invadido por uma entidade mais diabólica e destrutiva que o álcool, a violência, e o machismo juntos: o patrocinador. Anunciantes interessados na popularidade de festa esticaram seus tentáculos destrutivos descaracterizando rituais, músicas, e tudo o que poderia ser considerado minimamente autêntico em toda aquela manifestação folclórica. Há até camisetas patrocinadas identificando participantes como “Carregador Oficial” do pau. É a filosofia do abadá destruindo culturas.
Segundo o diretor, Rivelino Mourão, o documentário vai além do registro direto da celebração religiosa. O encontro com Tica, Mestra Melyssa e Luís Santana – personagens principais do filme – propõe um olhar atento para suas relações com a religiosidade e para as transformações que marcam a cerimônia nos dias de hoje. “Na Festa do Pau da Bandeira, o sagrado e o profano não se opõem, eles se atravessam continuamente. Nosso gesto foi tentar captar essas relações, onde as experiências religiosa e cultural revelam tradições e contradições” afirma o cineasta.
Mais que um documentário, “O Cio da Terra” é um tratado antropológico que ajuda a compreender porque, em nosso país, a expressão “do caralho” significa algo excelente. Sua estreia nacional acontece no Festival é Tudo Verdade. Acompanhe a programação em www.etudoverdade.com.br

