“CASO 137”, A POLÍCIA CONTRA TODOS.
Por Celso Sabadin.
O início de “Caso 137” é um soco no estômago de qualquer brasileiro. Logo na primeira cena, vemos um policial francês sendo severamente interrogado pela corregedoria por ter sido flagrado atirando uma pedra na direção de manifestantes. Atirando uma pedra. Uma pedra que não atingiu ninguém. No meio da manifestação popular tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio da manifestação popular. E o atirador foi parar na corregedoria. No Brasil, se um policial descarrega covardemente uma arma numa pessoa que nem precisa ser manifestante talvez ele receba uma “severa repreensão verbal”. Talvez.
Após este início perturbador (pra nós), “Caso 137” inicia propriamente a história que se propõe a contar. Ao contrário do que parece, o roteiro não é baseado em um único e verdadeiro “caso 137”, mas em vários casos similares que deram origem a esta – digamos – compilação dramatúrgica de pequenas verdades. Tudo acontece em 2018, momento em que muitos casos de manifestantes feridos e mesmo mutilados pela polícia francesa foram registrados durante os protestos dos chamados “coletes amarelos”, durante o primeiro mandato do Presidente Emmanuel Macron.
Neste contexto, a policial da Corregedoria Stéphanie (Léa Drucker) é designada para um caso envolvendo abuso de poder cometido contra um jovem gravemente ferido na cabeça durante uma manifestação. Ela terá de enfrentar não apenas as várias dificuldades típicas de uma ação desenvolvida em situação de tumulto, como também a podridão do corporativismo policial (pensa que é só aqui?), o racismo, o machismo, os entraves burocráticos, a pressão familiar e a opinião pública.
A boa notícia é que “Caso 137” não é um filme estadunidense, pois caso fosse todos nós já saberíamos como ele iria se desenvolver e como terminaria.
Com roteiro de Gilles Marchand e do próprio diretor, Dominik Moll, “Caso 137” foi selecionado para a Mostra Competitiva de Cannes e indicado para oito prêmios César, vencendo na categoria de melhor atriz para Léa Drucker. Não confundir com “Césio 137”.
O longa estreou na última quinta-feira, 16/04, em Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Búzios (RJ), Caxias do Sul (RS), Curitiba (PR), Florianópolis (SC), Goiânia (GO), Londrina (PR), Niterói (RJ), Ribeirão Preto (SP), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), Santos (SP), São Paulo (SP) e Vitória (ES).
Quem dirige.
Após considerar uma carreira como documentarista da vida selvagem, Dominik Moll descobriu os filmes de Alfred Hitchcock e decidiu mudar para a ficção. Estudou cinema no City College de Nova York e no IDHEC em Paris, onde conheceu seu colaborador de longa data, Gilles Marchand. Juntos, eles escreveram os roteiros da maioria de seus filmes individuais. Na década de 1990, Moll trabalhou como editor e assistente de direção (notavelmente com Laurent Cantet e Marcel Ophuls) e dirigiu seu primeiro longa-metragem, “Intimité” (1994). Seu segundo filme, “Harry Chegou para Ajudar” (“Harry, un ami qui vous veut du bien”), foi exibido na competição em Cannes em 2000 e foi um sucesso de crítica e público, ganhando quatro prêmios César. Em seus filmes seguintes, Moll continuou a explorar filmes de gênero, integrando cada vez mais temas sociais. Em 2023, “A Noite do Dia 12″ (“La nuit du 12″) ganhou sete Césars após ser elogiado tanto pela crítica quanto pelo público. Dominik Moll também trabalhou em duas séries internacionais, incluindo “Eden” (para o canal Arte), sobre os destinos que se cruzam de migrantes por toda a Europa.

