EM “APLAUSOS”, O CINEMA APRENDE O QUE FAZER COM O SOM.
Por Celso Sabadin.
Fiquei curioso em ver o drama “Aplausos” por uma razão puramente histórica. Ele é tido como o primeiro filme da história do cinema a utilizar dois microfones simultâneos em cena, e a desenvolver algo parecido com o que hoje chamamos de mixagem de som, criando assim uma trilha sonora com funções efetivamente narrativas e dramáticas, feito inédito até então.
“Aplausos” foi lançado em Nova York em 7 de outubro de 1929, exatamente dois anos e um dia após a estreia de “O Cantor de Jazz”, o filme que deu o pontapé inicial na era falada do cinema.
Durante esses dois anos (e um dia), a indústria cinematográfica mundial saiu desesperadamente batendo cabeça tentando resolver o seguinte problema: Inventamos o cinema falado; e agora? O setor como um todo teve de ser rápida e radicalmente reconstruído ou adaptado, desde o estilo de intepretação dos elencos até o isolamento acústico dos estúdios, passando pelo desenvolvimento de microfones, instalação de cabos e caixas acústicas em milhares de salas de exibição, e criação de estratégias para a manutenção das exportações dos filmes em diversos idiomas. Quem viu “Cantando na Chuva” sabe do que eu estou falando.
Neste cenário, “Aplausos” foi inovador na sua época. Até sua estreia, os filmes sonoros dedicavam-se básica e primordialmente apenas à inteligibilidade dos diálogos, o que já era por si só uma grande preocupação para os técnicos que se iniciavam naquela tecnologia. “Aplausos” foi além. Por exemplo, a jovem April (Joan Peers) consegue fugir do assediador Hitch (Fuller Mellish Jr.) porque escuta o aproximar dos seus passos. Não é preciso que a câmera mostre. O desespero de Kitty (Helen Morgan) é potencializado pela intensidade dos sons urbanos que invadem a noite do seu quarto. O passeio de April e Tony (Henry Wadsworth) por Nova York ganha mais realismo e dimensão com a bem urdida paisagem sonora da cidade, numa cena que finaliza com o sobrevoo de um avião.
Há problemas também, claro, como cenas em que a intensidade da música parece se sobrepor aos diálogos, fazendo com que os atores subam os tons de suas vozes, quase como se estivessem brigando. Tudo é muito novo no som cinematográfico.
Questões técnicas a parte, “Aplausos” também chama a atenção pela ousadia de seu tema, não usando meias palavras (nem meias imagens) para retratar sua protagonista, menor de idade, sendo agressivamente assediada pelo namorado da mãe. Afinal, apenas no ano seguinte – 1930 – seria criado o infame Código Hays de censura, que mesmo assim demoraria cerca de três ou quatro anos para ser implantado, atrasando em décadas o desenvolvimento temático do cinema estadunidense.
Adaptado do romance homônimo de 1928, escrito pela ex-corista Beth Brown, “Aplausos” marca a estreia do diretor Rouben Mamoulian, vindo do teatro, no cinema.
Tem grátis no Youtube uma cópia muito boa, restaurada, mas que só disponibiliza aquelas legendas geradas automaticamente: https://www.youtube.com/watch?v=BQi0PqS-QcA

