“ALMA NEGRA – DO QUILOMBO AO BAILE”: MUSICALMENTE IRRESISTÍVEL.

Por Celso Sabadin.

Já faz alguns anos que o dia representativo da importância, da ancestralidade e da consciência negras passou a ser 20 de novembro, em referência à morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares. Instituída oficialmente em 2011, a data substitui o 13 de maio, que antigamente estudávamos nas escolas como a tal “abolição” da escravatura, que na realidade nunca aconteceu de verdade.

Isso, porém não tira nem um pouco o mérito da estreia de “Alma Negra – Do Quilombo ao Baile” acontecer em cinemas brasileiros na semana em que antigamente se comemorava a Leia Áurea. Afinal, todo momento é propício para ver, rever, investigar e aprender mais sobre o papel decisivo da cultura negra na nossa sociedade.

Dirigido por Flávio Frederico, o longa se fixa com maior vagar na trajetória da soul music, desde suas origens nos campos de colheitas dos Estados Unidos, passando por grandes astros como Ray Charles, até chegar ao Brasil, romper barreiras racistas, e se espalhar pelos bailes black. Como toda manifestação artística, a soul music também é uma poderosa ferramenta de afirmação social e racial, e sua difusão propiciou a revelação do papel desses espaços como territórios de resistência cultural e política, durante a ditadura militar.

Com roteiro de Mariana Pamplona e Flavio Frederico, e direção musical do produtor BiD, o documentário reúne grandes nomes da música negra brasileira e traz referências históricas como Tim Maia, Cassiano e Gérson King Combo. Conta ainda com depoimentos de especialistas e intelectuais como Nelson Motta (sempre, né?), Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez e Edneia Gonçalves, entre outros.

Antes de chegar ao circuito comercial, o filme percorreu diversos festivais no Brasil e no mundo. Entre os destaques estão as exibições no Festival do Rio, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, além de sessões no Festival de Havana (Cuba) e no encerramento do Fest Aruanda, da Paraíba. O longa também integrou a programação da Mostra de Cinema de Tiradentes e do IN-EDIT Brasil 2025.

Apostando na narrativa clássica e tradicional, “Alma Negra – Do Quilombo ao Baile” opta pela sobriedade na construção de sua linha informativa, e mostra-se irresistível na abordagem musical, trazendo grandes momentos dos maiores ídolos da música negra mundial. É difícil assistir sentado.

Ao final do filme, algumas perguntas ficaram na minha cabeça: Não fizeram até agora nenhum documentário sobre Tony Tornado? Tão esperando o quê? E sobre Erlon Chaves, que foi tão perseguido pela ditadura que morreu do coração aos 40 anos? E sobre o genial Cassiano?

Quem dirige

Flavio Frederico realizou diversos curtas-metragens e documentários premiados internacionalmente. Lançou sete longas metragens no circuito comercial, entre eles “Urbania”, com pré estreia no festival de Rotterdam 2001; “Caparaó”, o grande vencedor do festival É Tudo Verdade 2006; o longa metragem premiado de ficção “Boca”, lançado em 2012; “Em busca de Iara” (2014) e o longa documentário “Em um Mundo Interior” (2018). .Seu sexto longa-metragem,  o documentário/animação “Rumo” (2021), codirigido por Mariana Pamplona, foi selecionado para a competição do Festival É Tudo Verdade (2019) e INEDIT Brasil (2019) e lançado comercialmente em 2021. Em 2022, lançou o longa de ficção “Assalto na Paulista”.