FRANCO-BELGA “SEIS DIAS NAQUELA PRIMAVERA” TENTA ABORDAR O TEMA DA EXCLUSÃO.
Por Celso Sabadin.
Nunca escondi meu pé atrás com filmes que retratam grupos excluídos, mas que trazem a assinatura de produtores e diretores pertencentes aos grupos que os excluem. No caso de “Seis Dias Naquela Primavera” – que estreia em cinemas nesta quinta, 21 de maio – fiquei não com um, mas com os dois pés atrás. Temos aqui uma protagonista mulher negra, e seus filhos, vivendo uma situação de exclusão retratada em um filme de produção 100% europeia e dirigida por um homem que, além de branco, é belga.
Muitos provavelmente dirão que eu deveria separar a arte do artista, mas minha desconfiança intrínseca é maior que eu: simplesmente não consigo.
Joachim Lafosse, o diretor, se defende (não que eu o tenha atacado, claro) argumentando que a história retratada no filme é autobiográfica, ou seja, que ele próprio está representado em um daqueles irmãos que acompanhamos na trama. Ao meu ver, tal depoimento só piora as coisas, pois os meninos do filme são pretos, e Lafosse, não.
Enfim, idiossincrasias minhas à parte, vamos ao filme propriamente dito. Sana (Eye Haïdara) e seus dois filhos – Raphael e Thomas, vividos por Leonis Pinero Müller e Teodor Pinero Müller, irmãos também na vida real – saem de férias, mas algo dá errado na hospedagem previamente pretendida. Para não decepcionar os garotos, ela arrisca uma saída perigosa: ocupar a luxuosa casa de veraneio do ex-sogro, da qual ela ainda tem a chave, apesar de não estar mais casada com o filho do proprietário. A presença de três pessoas negras na Riviera Francesa chama a atenção e incomoda a vizinhança.
“Seis Dias Naquela Primavera” fala de perdas e de não-pertencimentos de maneira fluida e ligeira. É eficiente na necessária criação do sentimento de cumplicidade dos seus personagens com a plateia, e opta pelo não aprofundamento do tema. Planos fechados, sufocantes e claustrofóbicos constroem imageticamente a ausência de saídas dos protagonistas.
O filme venceu os prêmios de Melhor Direção e Melhor Roteiro (Joachim Lafosse, Chloé Duponchelle e Paul Ismaël) no Festival de San Sebastián.
Quem dirige
Joachim Lafosse nasceu em 1975 em Bruxelas. Após se formar no IAD, ele dirige em 2003 seu primeiro longa-metragem, Private Madness, selecionado para a competição oficial no Festival de Locarno. Em 2006, dirige dois longas-metragens: What Makes You Happy (selecionado para a competição em Locarno e vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival Premiers Plans, em Angers) e Propriedade Privada, com Isabelle Huppert (em competição no Festival de Veneza). Em 2008, lança Private Lessons na Quinzena dos Realizadores em Cannes. A reputação de Joachim Lafosse cresce a cada filme, como demonstrado pelo reconhecimento nacional e internacional de Perder a Razão (selecionado para a mostra Un Certain Regard, em que Émilie Dequenne ganhou o prêmio de Melhor Atriz). Em 2015, dirige Os Cavaleiros Brancos, com um elenco de prestígio (Vincent Lindon, Valérie Donzelli, Louise Bourgoin, Reda Kateb), apresentado em Toronto e San Sebastián (Prêmio de Melhor Diretor). Já em A Economia do Amor, com Bérénice Bejo e Cédric Kahn, foi exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes, em 2016, e recebeu ótimas críticas tanto da imprensa quanto do público. Em Seguir em Frente, com Virginie Efira e Kacey Mottet-Klein, estreou em Veneza, em 2018. Em 2021, ele competiu em Cannes com Os Intranquilos e em 2023 com Um Silêncio competiu em San Sebastián.

