AS VÁRIAS LUTAS DE “CRIADAS”.
Por Celso Sabadin.
“Criadas”. Num primeiro momento, o título sugere algo na linha de “Domésticas” (Fernando Meirelles e Nando Olival, 2001), ou “Doméstica” (Gabriel Mascaro, 2012), ou de “Casa Grande” (Felipe Barbosa, 2014), ou de “Que Horas Ela Volta” (Anna Muylaert, 2015), ou do recentíssimo “Aqui Não Entra Luz” (Karol Maia, 2016). Mas não é bem por aí. “Criadas” tem uma pegada diferenciada, na qual a histórica, congênita e endêmica luta de classes brasileira é enfocada sob outros prismas.
Tudo gira em torno das primas Sandra (Mawusi Tulani) e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), ambas negras. Elas não se vêm há muito tempo. A necessidade de Sandra sair de Minas Gerais e passar algum tempo na casa paulista de Mariana provoca esse reencontro que – logo perceberemos – não será nada fácil, tampouco desejado por nenhuma delas.
A casa – a mesma onde as protagonistas foram “criadas”, como já sugere o inspirado título do filme – transforma-se em um repositório de mágoas jamais resolvidas, causadas principalmente pelo outro sentido da palavra “criada”: aquele tristemente enraizado nas relações escravocratas de séculos de Brasil. Tais muros podem ser derrubados?
Introspectivo e reflexivo, flertando com o estilo teatral, “Criadas” traz ótimas intepretações e sabe fazer uso de uma matéria prima essencial para a dramaturgia, mas que tem sido esquecida nos últimos tempos: o silêncio. O tão necessário e expressivo silêncio que tanto grita às nossas percepções e sensibilidades.
Primeiro longa metragem ficcional da roteirista e diretora Carol Rodrigues “Criadas” rendeu às sua dupla central de atrizes o prêmio de interpretação feminina na mostra Novos Rumos do Festival do Rio. O longa também foi selecionado para a mostra competitiva do Africa Movie Academy Awards.
A estreia em cinemas é nesta quinta, 11 de junho.
Quem dirige
Carol Rodrigues assinou curtas premiados como “A felicidade delas” (2019) e “A boneca e o Silêncio” (2015). Também assina o roteiro de “Criadas”, vencedor do Prêmio Cabíria de Melhor Roteiro em 2023 e de mais três prêmios do BrLab 2017. Além da direção de curtas-metragens, integrou as salas de roteiro das séries “3%”(T3 e T4), da Netflix, “Escola de Gênios” (T1 e T2), como roteirista e assistente de roteiro no Gloob/Globoplay e de roteirista de “Pico da Neblina” (T2), da 02 Filmes e HBO Brasil.

