A ESPANHA DIVIDIDA DE “OITO DÉCADAS DE AMOR”.

Por Celso Sabadin.

Cuidado com o título. “Oito Décadas de Amor” fala, sim, de romance. Mas muita água vai rolar debaixo da ponte antes do amor realmente acontecer. E quando a gente percebe que a tal “ponte” se chama Espanha, rapidamente a água se transforma em sangue.

Com roteiro e direção de Julio Medem (do ótimo “Amores do Círculo Polar” e de “Lucia e o Sexo”), o longa cobre não apenas oito, mas nove décadas das vidas e histórias de seu casal de protagonistas: Adela (Ana Rujas) e Octavio (Javier Rey). Nascidos no mesmo dia, em 1931, ambos formam uma espécie de Romeu e Julieta ibérico separados no nascimento por um país assolado pelo franquismo. É através de seus olhares e sentimentos que o espectador é convidado a empreender um passeio de pouco mais de duas horas pela história recente da Espanha.

Neste contexto, o roteiro carrega em cores utópicas que prefere atribuir a histórica e aparentemente insolúvel cisão social da Espanha a apenas “estes políticos que vivem jogando uns contra os outros”, como diz Adela, optando assim por uma abordagem simplista e conservadora.

“Oito Décadas de Amor” faz uma opção estética perigosa pela estilização maneirista. Quase uma fábula. Incessantes movimentos de câmera e divisões de tela muitas vezes mais atrapalham que ajudam na narrativa. Neste contexto, o excesso de “coincidências” de roteiro até pode ser perdoado, na medida em que a direção deixa claro que não vai caminhar pelo realismo clássico. Em determinados momentos, o filme até consegue provocar as necessárias tensões e emoções, mas quase põe tudo a perder quando ensaia alguns finais falsos e compromete o ritmo de sua desenvoltura.

Vencedor dos prêmios principais do Mediterrane Film Festival, em Malta, “Oito Décadas de Amor” estreou no último 11/06 em cinemas brasileiros.