“O REINO DE WALT DISNEY”, MUITO ALÉM DE MICKEY MOUSE.

Por Celso Sabadin.

Assim que fiquei sabendo que o canal Curta vai exibir uma série documental sobre Walt Disney, a pergunta logo me veio à cabeça: seria uma hagiografia sobre o quanto ele era absurdamente genial, ou os realizadores abordariam também o fato dele ter sido um dos maiores delatores contra seus próprios colegas, na época do Macartismo?

Ainda não tenho a resposta: a série “O Reino de Walt Disney” tem quatro episódios de cerca de 50 minutos cada, mas até o momento apenas dois foram liberados para a imprensa. Não cheguei ainda na época da terrível “caça às bruxas” de Hollywood, e portanto não dá pra saber no momento qual será a postura da série. Mas há sinais.

O primeiro episódio, intitulado “Um Artista em Formação”, estreia na próxima quarta-feira, dia 01/07, às 22h,30 no canal Curta. Através de um espantoso material de arquivo (incrível como Walt Disney foi amplamente fotografado, em várias de suas idades!), ele segue a narrativa clássica e tradicional do cinema documental, mostrando suas origens, família, vida no interior, dificuldades econômicas, início de carreira como ilustrador publicitário, e seu ímpeto empreendedor no desenho de animação.

Ainda que aborde alguns conflitos de relacionamento com o pai, este primeiro capítulo não cita os supostos problemas psicológicos de Disney, relatados – não sei dizer com que grau de veracidade – no livro “O Príncipe Negro de Hollywood”, de Marc Eliot.

O segundo episódio já se concentra mais na carreira profissional do biografado, principalmente na grande empreitada que foi “Branca de Neve e os Sete Anões”, idealizada em 1934 e concluída três anos depois. O texto narrado em off do documentário afirma que “Branca de Neve…” teria sido a primeira animação em longa metragem da história do cinema, o que não corresponde à verdade: o mérito cabe ao argentino “El Apostol”, de Quirino Cristiani, produzido em 1917 e hoje infelizmente perdido. Também é dito que a câmera multiplano – que simula um efeito tridimensional às animações – igualmente seria uma invenção de Disney, o que novamente não é verdade, já que tal pioneirismo pertence à alemã Lotte Reiniger, nos anos 1920.

Não acredito que seja justo atribuir tais falhas de informação a um eventual cochilo dos pesquisadores do documentário, mas sim a quem o produziu: “O Reino de Walt Disney” é uma realização da PBS, canal de TV pública dos Estados Unidos, país cuja cultura jamais admite que outras nações estrangeiras possam ter algum tipo de pioneirismo.

Também de forma enviesada, a série sugere que lançar o curta “Steamboat Willie” – estreia de Mickey Mouse no cinema – como um filme sonoro teria sido uma ousada e inovadora ideia de Disney. Não foi bem assim. Na verdade, a animação estava sendo produzida para ser muda quando Disney (e a torcida do Flamengo) foi surpreendido pelo gigantesco sucesso de “O Cantor de Jazz”, em outubro de 1927, que inaugurou a era sonora. Vários produtores que estavam realizando filmes silenciosos, diante da estrondosa novidade, adaptaram seus projetos para a nova tecnologia. Disney foi um deles.

O final do segundo episódio mostra como o enorme sucesso do ex-jovem desenhista e ilustrador acabou transformando e transtornando a personalidade de Disney, na medida em que ele  gradativamente deixa de ser um artista criativo para ingressar numa das piores categorias de seres humanos que existe: a do grande empresário.  Mas há muito mais para ser visto.

Imprecisões históricas à parte (a perfeição é uma meta, como já dizia Gilberto Gil), o fato é que estes primeiros dois episódios de

“O Reino de Walt Disney” são um verdadeiro show de informações e imagens de arquivo com alto potencial de agradar não apenas aos fãs de cinema e quadrinhos como a qualquer um que se interesse pela história da comunicação do século 20.

Ansioso pra ver o restante da série.

“O Reino de Walt Disney”, a série completa, pode ser vista no CurtaOn – Clube de Documentários, disponível no Prime Video Channels, da Amazon, na Claro tv+ e no site oficial (CurtaOn.com.br). A estreia no Curta! é no dia temático Quartas de Cena & Cinema, 01 de julho, às 22h30. Horários alternativos: quinta-feira, dia 02 de julho, às 02h15 e às 16h30; sexta-feira, dia 03 de julho, às 10h30; sábado, dia 04 de julho, às 10h30; domingo, dia 05 de julho, às 16h30.