“A ÚLTIMA MULHER NA TERRA”: CORMAN SEM DEUS, MAS COM O CÓDIGO HAYS.
Por Celso Sabadin.
Quem foi o primeiro a ser o último? Ao ver “A Última Mulher na Terra”, dirigido e produzido pelo mago Roger Corman em 1960, logo me lembrei de algumas versões anteriores de filmes parecidos sobre sobreviventes solitários em nosso planeta: “Mortos que Matam” (The Last Man on Earth, de 1964, com Vincent Price), “A Última Esperança da Terra” (The Omega Man, de 1971, com Charlton Heston) e “Eu Sou a Lenda” (I Am Legend, de 2007, com Will Smith). Teve uma série recente também, “O Último Cara da Terra” (The Last Man on Earth, entre 2015 e 2018), mas essa eu não vi.
Há outros, que desconheço, mas fiquei particularmente curioso a respeito de duas versões que – pelo menos até o momento – não consegui encontrar para ver: uma muda, estadunidense, de 1924 (“The Last Man on Earth”, produzida pela Fox e dirigida por John G. Blystone); e a comédia também estadunidense, mas falada em espanhol (direcionada ao mercado latino), “El Último Varon sobre la Tierra”, de 1933.
Ao que parece, a origem de todos estes filmes seria um conto publicado por John D. Swain em uma revista especializada em ficção científica chamada Munsey`s Magazine, em 1923.
Mas deixemos de lado os últimos homens sobre a Terra e voltemos à última mulher, de Corman. “A Última Mulher na Terra” é o primeiro roteiro de Robert Towne a ser filmado. Sim, o mesmo Robert Towne que mais tarde escreveria filmes como “Chinatown”, “Busca Frenética”, “Dias de Trovão”, “Missão Impossível” e muitos outros. Além de roteirizar, Towne aqui também interpreta – com o pseudônimo de Edward Wain – o papel de Martin, o pivô de toda a trama. No filme, Martin é o advogado responsável por livrar seu amigo e cliente milionário Harold (Anthony Carbone) dos vários trambiques e negociatas em que se mete. Evelyn (Betsy Jones-Moreland), esposa de Harold, infeliz no casamento, se insinua a Martin, que fica desconfortável com a situação. Até que – de repente – todo mundo morre e ficam só estes três personagens vivos sobre a face da Terra.
E por que todo mundo morre? Isso não tem a menor importância. O que realmente interessa ao filme agora é a reconfiguração deste triângulo amoroso dentro de uma nova realidade humana e social na qual todos os valores tradicionais foram por água abaixo. Inclusive o dinheiro e a instituição do casamento, e o próprio deus. Como se sabe, Corman extrairá o máximo desta situação com o mínimo de orçamento, confirmando mais uma vez seu enorme talento de produzir histórias boas e baratas.
E para quem pensou que Martin, Evelyn e Harold poderiam antecipar algo parecido com o que Truffaut faria dois anos depois em “Jules e Jim”, pode esquecer: “A Última Mulher na Terra” é um filme estadunidense ainda realizado sob o Código Hayes de censura, no qual o conservadorismo sempre prevalece. Não por acaso, a cena final acontece dentro de uma igreja.
Tem umas cópias colorizadas no YouTube, mas eu curto mais o preto e branco original: https://www.youtube.com/watch?v=lN5Hst3GzVY
Não tem legendas.

