“CYCLONE” E O ETERNO APAGAMENTO FEMININO.

Por Celso Sabadin, de João Pessoa.

A exibição de “Cyclone” na noite de ontem, 09/12, na Mostra Competitiva Nacional do 20º Fest Aruanda, foi emocionalmente potencializada pelos acontecimentos recentes. Infelizmente. Projetar um longa sobre o apagamento feminino durante este momento tão abjeto de criminalidade contra as mulheres reveste-se de um simbolismo atroz.

Afinal, o filme tem livre inspiração em Maria de Lourdes Castro Pontes, jovem operária aspirante a escritora cujos textos teriam chamado a atenção de Oswald de Andrade, uma das figuras máximas do Modernismo brasileiro. Como são raras e esparsas as informações sobre ela, a roteirista Rita Pfiffer lançou mão da ficção para preencher as várias lacunas existentes.

Contudo, o que está em jogo em “Cyclone” não é a acuidade histórica de Maria de Lourdes, mas sim os processos estruturais machistas e misóginos que envolvem não apenas a sua trajetória, como também a de inúmeras mulheres que tiveram a “ousadia” de se lançar ao mundo das artes.

Do anonimato forçado da autoria de suas obras  à necessidade de autorizações formais de maridos para a emissão de passaportes, o filme aborda as dificuldades – praticamente as impossibilidades – de desenvolvimento da mulher naquele início de século 20. E que permanece neste século, como sabemos.

Além do tema – urgente e importante – “Cyclone” também chama a atenção  pela preciosidade de uma concepção artístico-visual bela e sutil, que consegue mergulhar o espectador na década de 1910 através de soluções eficientes e econômicas, evidenciando a poética utilização de luzes, sombras, cores e texturas.

Isso sem falar na sólida interpretação de Luiza Mariani, que viveu a mesma personagem no teatro. O longa é um projeto pessoal dela, e a direção é de Flavia Castro. O elenco também traz Eduardo Moscovis, Karine Teles, Luciana Paes, Magali Biff e Ricardo Teodoro, entre outros.

O filme é inédito na Paraíba, mas já está em cartaz em algumas cidades do Brasil.

 

Quem dirige

Flavia Castro nasceu no Brasil, mas cresceu no exílio. Ao longo de sua carreira, atuou como pesquisadora e assistente de direção ao lado de cineastas como Richard Dindo e Philippe Grandrieux, além de ter colaborado como roteirista com diretores como Eduardo Escorel, Roberto Berliner, Vicente Amorim e Vinicius Reis. Seu primeiro longa-metragem documental, “Diário de uma Busca” (2011), foi amplamente reconhecido e premiado internacionalmente. Já sua estreia na ficção veio com “Deslembro” (2018), que teve première mundial na Mostra Orizzonti do Festival de Cinema de Veneza e seguiu uma trajetória de destaque em festivais, conquistando diversos prêmios da crítica e do público.

 

A programação completa do 20º Fest Aruanda está em www.festaruanda.com.br

 

Celso Sabadin viajou a João Pessoa a convite da organização do evento.

 

Texto publicado em www.planetatela.com.br