“A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO” COM O DEDO NAS FERIDAS.
Por Celso Sabadin.
“Se você tivesse uma máquina do tempo, você iria para o passado ou para o futuro?”. A pergunta é feita para um grupo de meninas de Guaribas, no Piauí, cidade que foi escolhida para testes piloto na época da implantação do programa social Bolsa Família. Este é dispositivo utilizado por “A Fabulosa Máquina do Tempo”, longa que faz parte da programação do 31º Festival É Tudo Verdade.
A partir deste questionamento, o filme investiga as aspirações, medos, ansiedades, alegrias e tristezas destas garotas que respondem a tudo com sinceridade e empatia encantadoras. E mais: levam os mesmos questionamentos para suas casas, onde acontecerão desdobramentos incitantes e reveladores. Como parte do processo, as respostas são encenadas teatral e cinematograficamente.
“As protagonistas do filme fazem parte da primeira geração de meninas que nasceu com o direito de comer, estudar e sonhar. E embora tudo se passe em uma única cidade, o filme tem múltiplas camadas que revelam a complexidade da sociedade brasileira hoje”, afirma a diretora Eliza Capai.
Como as conversas com as meninas inevitavelmente enveredam para temas bastante sensíveis (machismo, fome, pobreza, sexo, violência, etc) – que são igualmente levados para suas famílias – confesso que fiquei preocupado em saber se a equipe de produção contou com algum tipo de assessoria psicológica (ou mesma pedagógica) para o desenvolvimento e principalmente para a continuidade do projeto junto com as entrevistadas e familiares. Fiz esse questionamento para a equipe, através de sua assessoria de imprensa, mas pelo menos até o momento não obtive resposta (mesmo porque o pessoal deve estar correndo com os procedimentos do Festival). Mas assim que obtiver, eu volto aqui pra contar.
Mais que um envolvente documentário, “A Fabulosa Máquina do Tempo” também tem esse viés antropológico.
Quem dirige
Documentarista de temas relacionados a gênero e sociedade, Eliza Capai está entre os 10 brasileiros convidados para ingressar na Academia do Oscar em 2025. Em 2026, lançará seu novo longa-metragem “A Fabulosa Máquina do Tempo”, na mostra Generation Kplus do Festival de Berlim. A série “O Prazer é Meu” (2024), que Eliza idealizou e dirigiu, foi nomeada ao Emmy Internacional 2025 na categoria “Documentário”. Seu longa “Incompatível com a vida” (2023) foi premiado como Melhor Filme no É Tudo Verdade, se qualificou para o Oscar 2024, além de escolhido para representar o Brasil nos Premios Platino, eleito o melhor documentário de 2023 da APCA e teve uma versão curta publicada no The New York Times. Eliza também assina a direção da primeira série brasileira true crime original Netflix “Elize Matsunaga: Era uma vez um crime” (2020), lançada em 190 países, alcançando Top10 em diversos países, incluindo Brasil e EUA. “Espero tua (re)volta”, seu terceiro longa, estreou na Berlinale (2019), com os prêmios da Anistia Internacional e da Paz, participou de outros mais de 120 festivais e ganhou mais de 25 prêmios. Seu primeiro longa, “Tão Longe é Aqui” (2013), foi lançado com o prêmio de Melhor Filme no Festival do Rio, entre outros prêmios no Brasil e no exterior. Formada em jornalismo pela Universidade de São Paulo, completou sua formação no OpenDocLab/MIT (EUA).

