A “GERAÇÃO Z” DE “A FAMÍLIA LERO-LERO”.
Por Celso Sabadin.
Por mais que a sempre elta Companhia Cinematográfica Vera Cruz priorizasse filmes ditos “sérios”, as comédias se constituíam em um filão inevitável para qualquer estúdio que zelasse pela sua saúde financeira. A colega carioca Atlântida era o maior exemplo disso. A paulista Vera Cruz produzia, sim, comédias, mas recusava o que se convencionou chamar de “chanchada”, adjetivo pejorativo que pressupunha um tipo de humor mais físico e/ou pastelão, realizado de maneira mais rápida e precária.
Para produzir o seu 11º longa metragem (e terceira comédia), a empresa foi buscar inspiração na peça teatral “A Família Lero-Lero”, de 1941, de autoria do jornalista, poeta, ensaísta, acadêmico e teatrólogo cearense Raimundo Magalhães Jr. A adaptação e o roteiro ficaram a cargo de Alinor Azevedo, Gustavo Nonnenberg e Alberto Pieralisi, este último também dirigindo.
Tudo gira – claro – em torno de uma família classe média paulistana, o principal público da Vera Cruz. Aquiles Taveira (Walter D´Avila, um dos melhores e mais subvalorizados humoristas brasileiros), é um funcionário público que sustenta a esposa Izolina (Marina Freire) e os três filhos: Laurita (Helena Barreto), Janjão (Ricardo Bandeira) e Teteco (Liiz Linhares). Já marmanjões (como se dizia antigamente), nenhum dos três aceita procurar um emprego convencional, e contam com o dinheiro do pai para bancar seus sonhos. Laurita quer ser atriz, Teteco deseja ser cantor, e Janjão busca uma carreira esportiva, mas nenhum deles tem o menor talento para tal. Piorando a situação, a mãe os defende ferozmente em todos os seus mimos (se o filme fosse atual, os conservadores colocariam a culpa na “Geração Z”).
Cansado de ser menosprezado tanto em casa como no serviço, Aquiles tem uma ideia de vingança.
Lançado em 22 cinemas paulistanos em setembro de 1953, “A Família Lero-Lero” pode não ter um roteiro brilhante, mas é notável como a direção imprime ao filme um vibrante ritmo cômico, extraindo do elenco excelentes intepretações e embasando sua narrativa em diálogos rápidos e espertos, o que denuncia a origem teatral do longa.
De alguma maneira, a casa da família Taveira, onde todos fazem o que querem, me remeteu – levemente – a “Do Mundo Nada se Leva”, que Frank Capra realizou em 1938, e que também é baseado em peça teatral.
Como é bastante comum nas comédias daquela época – da Vera Cruz ou não – sempre são tecidas críticas sarcásticas ao custo de vida e ao funcionalismo público. Aqui, há cenas em que se utiliza da câmera lenta e da expressão corporal arrastada para os horários de trabalho da repartição pública onde trabalha o protagonista, e – em contraposição – da câmera acelerada fora do horário do expediente.
Por outro lado, como também é bastante comum para a época – infelizmente – há apenas dois personagens negros no elenco, e ambos em papeis estereotipados: a empregada doméstica Maria e o prisioneiro Meia-Noite, dos quais – também infelizmente – desconheço os nomes de seus intérpretes. (Alguém me ajuda?)
É interessante notar a cena final (não é spoiler), na qual o protagonista quebra a quarta parede e se dirige diretamente ao púbico, meio que “se justificando” por seu golpe desonesto ter dado certo. E aproveita para, paternalisticamente, advertir: “Mas olhem que isso é fita de cinema, e vocês podem se dar mal”.
É o espirito do “Código Hays” estadunidense baixando no cinema brasileiro.
Pena que as cópias disponíveis gratuitamente no YouTube, ainda que apresentem som e imagem satisfatórios, estejam com a janela de projeção errada, cortando os limites da tela e reduzindo o quadro que seria o original correto.
Se alguém, mesmo assim, quiser arriscar, lá vai: www.youtube.com/watch?v=UlNllkLTbkU

