“ANATOMIA DO CAOS”: DENÚNCIA E GATILHO.
Por Celso Sabadin.
Quanto mais vemos, menos acreditamos. Apesar do pouquíssimo tempo transcorrido, parecem inacreditáveis as agruras pelas quais este país passou, na época da pandemia. Revendo as cenas registradas em “Anatomia do Caos”, fica um misto de terror e ficção científica numa embalagem de surrealismo. Como dizer para uma criança, no futuro, que um dia tivemos um presidente da república que ficava imitando jocosamente os infectados pelo vírus, em rede nacional?
E isso porque “Anatomia do Caos” não é um documentário sobre a pandemia como um todo, mas sim um recorte enfocando a CPI instalada para a verificação dos crimes cometidos pelo governo federal, na ocasião. Crimes que não se restringiram apenas à omissão, como fica bem claro no longa.
Com roteiro e direção de Dandara Ferreira, “Anatomia do Caos” não é simplesmente um apanhado resumido dos fatos e informações que todos nós acompanhamos, durante a pandemia. A cineasta teve acesso, desde 2021, aos bastidores da comissão no Senado e entrevistou parlamentares neste longa que discute com tristeza e indignação a memória recente da justiça no Brasil.
Para Dandara, a CPI da Covid surge como o palco de uma tragédia nacional, um teatro político. “Não se tratava apenas de negligência. Havia uma construção de uma narrativa em curso, uma política da desinformação que transformava a morte em estatística e a dor coletiva em deboche”. Segundo a diretora, o documentário não busca apenas revisitar o passado, mas questionar o presente e o que significa seguir adiante sem justiça ou responsabilização. “Esse filme nasce da necessidade pessoal de registrar esse período e da certeza de que algumas imagens precisam continuar abertas, porque elas ainda nos olham de volta”, conclui.
“Anatomia do Caos” entra em cartaz em cinemas nesta quinta-feira, 02/07.
Quem dirige
DANDARA FERREIRA é diretora e roteirista, formada em Cinema pela FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) e doutoranda em Comunicação Social pela UnB. Dirigiu a série “O Nome Dela É Gal” (HBO) e realizou curtas-metragens, filmes publicitários e videoclipes de artistas como Fagner (“Tanto Faz”), Ricky Martin feat. Dream Team do Passinho (“Vida”) e Vanessa da Mata (“Segue o Som”), entre outros. Em 2023, lançou seu primeiro longa-metragem, “Meu Nome É Gal”, no qual atua como diretora e atriz. Atualmente, finaliza o documentário “Vou Tirar Você Desse Lugar”, sobre a trajetória e a obra de Odair José”

