BRASILEIRO “VENENO” ABORDA MACHISMO E FEMINICÍDIO. EM 1952.
Por Celso Sabadin.
“Veneno”, produção brasileira da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, tem uma cena em seus primeiros momentos que remete ao tiroteio na sala de espelhos de “A Dama de Shanghai”, de Orson Welles. Depois, o longa se desenvolve em uma trama que lembra “Um Corpo que Cai”, e finaliza com uma perseguição mortal nos trilhos de uma estação de trem, digna de um filme noir estadunidense que no momento eu não consigo me lembrar do título.
Plágio? Nada disso! Mesmo porque “Veneno” foi lançado em São Paulo em novembro de 1952, enquanto o clássico de Hitchcock, além de ser de 1958, tampouco é a primeira obra a abordar tal tipo de obsessão masculina pela, digamos, “duplicação” da mulher amada. Quanto a “A Dama de Shanghai” e o noir que eu não me lembro o nome, pode até ser (ambos são dos anos 1940), mas eu prefiro chamar de referência. Afinal, na tentativa colonialista de “internacionalizar” o cinema brasileiro, a Vera Cruz sempre priorizou as referências internacionais em detrimento da busca por uma linguagem brasileiras.
De qualquer maneira, “Veneno” é um drama psicológico/policial com influência noir centralizado em Hugo (Anselmo Duarte), um homem perturbado que tem pesadelos recorrentes nos quais mata violentamente sua esposa Gina (Leonora Amar). Certa noite, Hugo conhece Diana (Leonora Amar, em papel duplo), misto de cantora de boate e prostituta, e fica encantado com sua semelhança com Gina. Decide, então, matar a esposa e colocar Diana em seu lugar.
A aposta da Vera Cruz em Leonora Amar – nome artístico de Leonora Amaresco – para o papel principal de “Veneno” não foi além deste seu único filme feito na empresa. A jovem cantora carioca se destacara desde adolescente nas rádios Mayrink Veiga, Tupi e Nacional, tendo embarcado posteriormente para a América do Norte, onde tentou a carreira de atriz. Chegou a atuar em alguns filmes mexicanos nos anos 1940 e 50, foi apelidada de “A Vênus Brasileira”, e abandonou a profissão antes dos 30 anos de idade. Fontes que carecem de confirmação falam de seus relacionamentos amorosos com o ator argentino Luis Aldás, e com Miguel Alemán, presidente do México entre 1946 e 1952.
“Veneno” tem direção e o roteiro de Gianni Pons, um dos italianos que trocaram o velho continente pela aventura paulistana de fazer cinema, mas cuja careira não teve grande continuidade. Após “Veneno”, Pons dirigiria apenas a produção independente “Os Três Garimpeiros”, sem grande repercussão. Afonso Schmidt, um dos roteiristas de “Caiçara”, o primeiro longa da Vera Cruz, foi seu corroteirista em “Veneno”.
Revisto atualmente, o filme se mostra um perturbador retrato documental da classe média conservadora brasileira à qual a produção cinematográfica da Vera Cruz preferencialmente se dirigia, naquela década de 1950. A predominância social masculina é inquestionável. No ambiente de trabalho do protagonista, cabem às mulheres apenas atividades subalternas, da mesma forma que os homens se reúnem para uma comemoração em locais de prostituição. A Rua Aurora, tradicional e histórico endereço da atividade na capital paulista, é citada nominalmente.
Na cena em que Hugo procura ajuda profissional para tentar solucionar a questão de seus sonhos, o profissional da saúde (Paulo Autran) lhe diz, professoralmente: “Eu gostaria, como médico, de lhe dar um conselho: case-se. Procure uma mulher terna, afetuosa, compreensiva. Enfim, uma companheira”. O personagem masculino é sempre apresentado no papel de provedor absoluto, o que lhe dá o direito de se impor física e moralmente sobre a mulher. Estapeando e matando, se necessário for.
E como não poderia deixar de ser, a única personagem negra é a empregada doméstica da casa de Hugo e Gina (Alice Resende).
Completam o elenco Zbigniew Ziembinski, Jackson de Souza, Renato Consorte, Neide Landi, Lana Alba, Tetsunosuke Arima, Ayres Campos, Dorinha Duval, Antonio Fragoso e Pia Gavassi, entre outros.
“Veneno” venceu o prêmio da Associação Brasileira de Cronistas Cinematográficos e o Troféu Saci de 1952 na categoria de Melhor Fotografia (para Edgar Brasil). Anselmo Duarte foi escolhido como o Melhor Ator pelo Prêmio Governador do Estado (SP).
Tem uma cópia ótima gratuita no Banco de Conteúdos Culturais da Cinemateca Brasileira em www.bcc.org.br/filmes/892838

