“CHARLES CHAPLIN E OS TEMPOS MODERNOS”: AULA DE HISTÓRIA, POLÍTICA E CINEMA.

Por Celso Sabadin.

Quando vi que o canal Curta iria lançar um documentário inédito chamado “Charles Chaplin e os Tempos Modernos”, confesso que duvidei da qualidade do filme. Achei que seria apenas uma reciclagem de materiais antigos, agora reorganizados para comemorar os 90 anos do lançamento de “Tempos Modernos”, ocorrido no último fevereiro. Mesmo porque é difícil achar – nesta altura do campeonato cinematográfico – que ainda seria possível fazer algo novo e/ou diferenciado sobre Chaplin.

Mesmo assim decidi ver o filme, motivado sobretudo pela chancela de qualidade que sempre acompanha os documentários do canal Curta. Que os deuses do cinema perdoem: eu estava absolutamente errado!

“Charles Chaplin e os Tempos Modernos” – embora o título possa sugerir uma espécie de making of do famoso longa do cineasta – é uma verdadeira aula de século 20. Produzido pela TV francesa Arte, o documentário se concentra entre 1931 e 1936, período entre a finalização de “Luzes da Cidade” e o lançamento de “Tempos Modernos”. Naquele momento, Chaplin travava uma luta inglória contra o mercado, convencido que o cinema deveria permanecer silencioso, apesar do estrondoso sucesso do pioneiro sonoro “O Cantor de Jazz”, lançado em outubro de 1929.

Dividido entre suas convicções artísticas e o apelo comercial do cinema, ele decide viajar pelo mundo (como é bom ser rico!) para pensar em seu próximo projeto. No percurso, toma contato direto com – literalmente – os tempos modernos, onde percebe com maior proximidade e intensidade como os reflexos da Crise de 1929, a automação desenfreada e a exploração do trabalho operário estavam oprimindo a sociedade.

Volta, então, a Hollywood e cria “Tempos Modernos”, chegando até a filmar algumas cenas faladas, mas logo abandonando a ideia e desenvolvendo uma solução genial: no filme, só se escutaria a voz humana se ela fosse transmitida por algum aparelho eletromecânico (rádio, intercomunicador, disco). Os diálogos entre seres humanos continuariam a ser registrados no estilo de cinema silencioso. Na famosa cena em que essa escrita é quebrada, Chaplin canta uma canção em um idioma inexistente. Está dado o recado: a pantomima é universal.

Lançado “Tempos Modernos”, a ala conservadora da sociedade estadunidense entra em pânico: ao criticar e satirizar a industrialização, colocando-se ao lado do trabalhador, o filme é taxado de comunista. Uma cena (divertidíssima, aliás) mostrando explicitamente o consumo de cocaína não ajuda muito na popularidade de Chaplin, que vê, a partir daí, sua carreira ser odiosamente atacada.

Paralelamente, estabelece-se e ganha força o medonho Código Hays, uma extensa lista de proibições impostas ao conteúdo dos filmes estadunidenses que parece ter sido redigida por uma madre superiora de um colégio de freiras tristes. A liberdade de expressão vai por água abaixo.

Chaplin decide então arregaçar as mangas e encarar ainda mais intensamente as questões políticas mundiais em seu próximo longa: “O Grande Ditador”, lançado em 1940, ou seja, antes dos EUA decidirem se entrariam ou não na Segunda Guerra. Antes de Hitler ter sido oficialmente considerado inimigo. O mercado novamente não gosta.

 

Toda essa agitação artístico-político-cinematográfica é contextualizada no filme apoiada por um farto material de arquivo e por uma costura de roteiro nunca menos que empolgante. Imperdível.

 

Com direção de Gregory Monro, “Charles Chaplin e os Tempos Modernos” pode ser visto no CurtaOn – Clube de Documentários, disponível no Prime Video Channels, da Amazon, na Claro tv+ e no site oficial (CurtaOn.com.br). A estreia no Curta! Será em 24 de junho, às 22h20.