“EU NÃO TE OUÇO” E A INCOMUNICABILIDADE POLÍTICA.
Por Celso Sabadin.
Desenvolver um longa-metragem com pouquíssimos personagens (dois ou três) não é exatamente um problema. O formato, mais comum no teatro, já foi utilizado/adaptado de forma genial no cinema em várias obras, como, por exemplo “A Morte e a Donzela”, “Antes do Amanhecer” e suas continuações, “Um Dia Muito Especial” e muitos outros que eu teria de recorrer à I.A. para me lembrar, mas estou com preguiça.
Em filmes assim, é essencial a excelência do texto. Seja profundo, satírico, irônico, romântico, dramático ou tudo junto, o importante neste estilo dramatúrgico é um texto forte que ancore a ação e encante a plateia. Este é justamente o grande problema de “Eu Não Te Ouço”, que estreia em cinemas nesta quinta, 14/05.
A premissa é das mais promissoras: provocar uma reflexão humana e política através de um fato inacreditável que chocou o país durante a campanha eleitoral de 2022: a ação do tal “patriota” que se pendurou na frente de um caminhão em movimento, reivindicando sabe-se lá o quê. O ato destrambelhado imediatamente se transformou em um dos memes mais urgentes de memeologia nacional, e inundou a internet pelo seu total desatino.
Agora, o meme virou filme. “Eu Não Te Ouço” ressignifica o acontecimento imaginando a presença de um repórter (na verdade, uma câmera subjetiva) que entrevista o caminhoneiro e o destrambelhado (ambos vividos pelo mesmo ator, Márcio Vito) no calor dos acontecimentos, ou seja, enquanto o caminhão prossegue sua viagem com o patriota pendurado do lado de foras. O para-brisa do caminhão transforma-se numa ótima representação simbólica da incomunicabilidade: os dois polos nunca se escutam.; só querem falar, mas jamais se interessam pela opinião do outro. Exatamente como na vida real. Uma boa ideia que, infelizmente, escorrega na falta de profundidade e – em vários momentos – na redundância do texto.
“Eu Não Te Ouço” marca o encerramento da trilogia política de Caco Ciocler como diretor. Ao relembrar suas obras, Ciocler afirma que “foram três momentos bastante perturbadores, que eu me senti impelido a reagir artisticamente. O primeiro filme (‘Partida’) nasce no momento em que Bolsonaro ganha as eleições; o segundo (‘O Melhor Lugar do Mundo É Agora’), durante a pandemia; e o terceiro, “Eu Não Te Ouço”, no dia em que Bolsonaro perde as eleições para Lula e se recusa a aceitar o resultado das urnas”.
Quem dirige
Caco Ciocler estreou na direção com o curta Trópico de Câncer, vencedor de Melhor Filme no Festival do Minuto. Dirigiu quatro longas premiados, entre eles Esse Viver Ninguém Me Tira (Melhor Documentário no Festival de Cinema Brasileiro de Los Angeles), Partida (Melhor Filme em Málaga e no Festival de Documentários do Porto) e O Melhor Lugar do Mundo é Agora (Prêmio do Público na 45ª Mostra de São Paulo). Eu Não Te Ouço fecha sua trilogia política iniciada em 2018 com Partida. Na ficção, dirigiu quatro episódios em duas temporadas da série Unidade Básica, que também protagoniza, disponível na Globoplay.

