“FRONTEIRAS DA MEMÓRIA”, O ABC (ARGENTINA / BRASIL/ CHILE) DA VERDADE.

Por Celso Sabadin.

Entre as aberrações humanas (re) descobertas com a recente expansão mundial da direita estão as infames e ininterruptas tentativas de se reescrever a História a favor dos criminosos. Quanto mais truculento o regime, mais é incentivada a ignorância dos fatos e a ressignificação dos acontecimentos a favor da nova ordem reacionária implantada.

Assim, é importantíssimo o fortalecimento das Comissões da Verdade, heroicas forças-tarefas empreendidas no sentido de revolver e cavucar a veracidade dos genocídios cometidos pelos governos de direita. Principalmente na América Latina, principalmente nos anos 1960, 70 e 80.

Investigar como Argentina, Brasil e Chile lidam com o tema é o objetivo da série “Fronteiras da Memória”, já disponível  no CurtaOn – Clube de Documentários, e que chega ao canal Curta! em 10 de abril. Em três episódios semanais, a série resgata experiências de cidadãos argentinos, brasileiros e chilenos que compartilharam a mesma realidade e mostram como seus países lidaram ou ainda lidam com as memórias deste passado. A direção é de Stela Grisotti.

Sobre os episódios

No episódio Argentina, o fotógrafo Eduardo Longoni (o mesmo que registrou o gol de mão de Maradona contra a Inglaterra, na Copa de 1986) relembra o momento em que se viu na frente dos acusados no julgamento das Juntas Militares: “Havia uma portinha pela qual esses monstros, esses assassinos, iam entrar. Os caras que eu tive medo a minha vida toda, os caras responsáveis pelo desaparecimento de colegas meus do colégio. E me recordo com muita clareza como tremiam as minhas mãos, e que eu não conseguia decidir qual lente colocar na câmera. O clima era terrível. Um ano e meio após a restauração da democracia, iriam se sentar no banco dos réus os que tinham sido amos e senhores deste país. Lembro que a porta se abriu e eu comecei a chorar”.

Além dele, outros nomes que transformaram a dor em luta por verdade e justiça estão no episódio. Uma delas, é Victoria Montenegro que revisita sua própria história ao homenagear os pais desaparecidos. Filha de militantes assassinados, teve sua identidade apagada ainda bebê ao ser apropriada por um militar e e criada com outra identidade. Recuperou sua origem com o apoio das Avós da Praça de Maio. O movimento ganha voz através das lembranças duas integrantes: Vera Jarach e Estela Carlotto, que ajudaram a romper o silêncio imposto pelo terrorismo de Estado.

No Brasil, a série percorre diferentes lugares para revelar como o país ainda convive com silêncios e marcas deixadas pelo período. Na Paraíba, a memória das Ligas Camponesas é contada a partir da trajetória de João Pedro Teixeira, líder camponês assassinado, e de Elisabeth Teixeira, que manteve viva a luta pela terra mesmo sob longa perseguição. O Memorial das Ligas e Lutas Camponesas, em Sapé, na Paraíba, é um espaço sustentado coletivamente pela comunidade de trabalhadores rurais e Juliana Teixeira, neta de Elisabeth, e Alane Lima, presidenta do Memorial, dão continuidade a esse legado.

Em São Paulo, o escritor Marcelo Rubens Paiva revisita a história do pai, Rubens Paiva, enquanto percorre o Memorial da Resistência. No antigo prédio do DOPS, suas lembranças pessoais se cruzam com relatos de outras famílias, revelando como o espaço ajuda a elaborar ausências deixadas pela Ditadura.

No Ceará, a trajetória de Caio Rezende amplia esse olhar. Filho de um militar, ele cresceu acreditando na versão oficial do regime, até investigar a própria história e descobrir o envolvimento do pai com a repressão — ruptura que o levou a transformar o confronto familiar em reflexão e criação artística.

O episódio dedicado ao Chile acompanha diferentes personagens que revelam as marcas da Ditadura liderada pelo general Augusto Pinochet, mostrando que a memória é um processo vivo, em constante reinvenção. Na zona rural do Paine, Sara Mendes Guajardo, filha de um camponês assassinado, transforma a ausência do pai em luta coletiva por justiça. Sua história se entrelaça ao Memorial do Paine, construído pela comunidade para lembrar 70 trabalhadores rurais mortos na região.

Em Santiago, o Estádio Nacional surge como um lugar de sentidos sobrepostos: símbolo de celebração esportiva e, ao mesmo tempo, cenário de prisão e violência. Manuel Méndez ficou preso ali e hoje atua como guia do memorial instalado no espaço. Na capital, a série visita o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, e encontra Ninóska Henriquez Araya e sua mãe, uma das muitas famílias marcadas pelo desaparecimento de parentes. Ninóska mostra uma carta escrita na infância à esposa de Pinochet, em busca de notícias sobre os avós desaparecidos.

No extremo sul do país, na região de Magalhães, Magda Ruiz e suas ex-companheiras de cárcere lutam para transformar a antiga prisão onde estiveram detidas em um espaço de memória aberto à sociedade. Já a trajetória de Pepe Rovano amplia o olhar sobre heranças inesperadas: criado longe do pai, ele descobre na vida adulta que sua origem está ligada à repressão e transforma essa revelação no filme “Bastardo, a Herança de um Genocida”.

Manter viva a memória histórica é fortalecer a democracia. Afinal, como dizem, o preço da liberdade é a eterna vigilância.