“NERVEN” E O COLAPSO DA SOCIEDADE. HÁ MAIS DE UM SÉCULO.

Por Celso Sabadin.

O instigante documentário “De Caligari a Hitler”, de Rüdiger Suchsland, baseado no seminal estudo homônimo de Siegfried Kracauer, sugere que ”Nerven”, de Robert Reinert, teria sido o verdadeiro filme pioneiro do Expressionismo Alemão, e não “O Gabinete do Dr. Caligari”, de outro Robert, o Wiene, que consta em todos os livros como o fundador do movimento.

“Nerven” foi lançado em 22 de janeiro de 1919, e “O Gabinete…” pouco mais de um ano depois, em 26 de fevereiro de 1920. Mas, como diz o documentário, “quem se lembra de Reinert, um diretor esquecido da época de Weimar?”. Lançando mão desta máquina do tempo virtual chamada internet, fui atrás de ”Nerven”, e encontrei uma cópia restaurada em 2008 com imagens razoáveis e uma sofrível tradução de legendas para o inglês. Não que eu compreenda alemão, mas me parece claro que “Wie wohl ist mir! Eutanasie Schön sterben nannten es die Griechen… ich danke Dir, Johannes” não pode ser traduzido por simplesmente “Thank you, John”, como está na cópia.

Devorei a obra com entusiasmo, e acredito que “Nerven” pode não ter sido o pontapé inicial do Expressionismo enquanto estética visual (neste quesito, o longa de Wiene é imbatível), mas como representação simbólica da Alemanha pós I Guerra, merece ser (re) visto e pensado. O filme é um doloroso repositório de tragédias, totalmente sintonizado com a situação exasperante do país que o produziu, naquele momento exposto às incomensuráveis perdas e à humilhação internacional consequentes da derrota do conflito.

“Eu sou louco ou criminoso?”. Quem pergunta é o personagem Roloff (Eduard von Winterstein), um poderoso industrial que – perturbado pela notícia de um estupro que sua irmã Marja (Erna Morena) teria sofrido – depõe no tribunal que viu o ato de violência com seus próprios olhos, provocando, assim, a condenação do réu, o professor Johannes (Paul Bender). A questão é que o estupro jamais aconteceu, mas Roloff tem a certeza absoluta que o presenciou. Quando Marja diz ao irmão que não sofreu tal violência, ele surta, se desespera, enlouquece. Seu ódio o fez vivenciar algo que não aconteceu. A culpa explode, avassaladora. Roloff diz que a deterioração de sua condição psicológica é reflexo da ansiedade do mundo. Os entretítulos originais citam expressões como “Nervenepidemien” (epidemias de nervos) ou “überreizte Nerven” (nervos hiper excitados), referências claras à caótica República de Weimar, instalada no país logo após a Guerra.

Contudo, nem este arrependimento tem o poder de humanizar o magnata, que opta pela covardia do silêncio, e prefere conviver com o peso de ter condenado um inocente a se retratar perante a justiça.

Casualmente ou não, tudo acontece após uma instalação industrial de Roloff explodir espetacularmente durante a festa de comemoração dos 500 anos de sua tradicional corporação familiar, logo após ele anunciar aos convidados o desenvolvimento de máquinas capazes de conquistar toda a Terra. “Vocês escutaram? Toda a Terra”, enfatiza Roloff em seu delírio autocrático que parece uma premonição dos próximos e terríveis anos que a Alemanha viverá. Mas o fogo consome tudo e algumas rupturas se estabelecem. A fábrica é destruída, como a Alemanha na Guerra. Roloff afirma que os fantasmas dos campos de batalha querem vingança, e que seus nervos, antes de aço, agora estão em frangalhos. Motivada pelos discursos populares do Professor Johann, que prega uma nova ordem social fundamentada na paz e no trabalho, Marja pressente novos tempos: “Não sentes como o fluxo misterioso faz o ar vibrar? Como a terra treme sob algo inaudito, monstruoso?” ela pergunta a uma criada.

Contudo, tais novos tempos de otimismo não virão. Pelo contrário, todos serão engolidos por uma inacreditável espiral de tragédias, culpas insuportáveis, alucinações e enlouquecimento. Os seguidores de Johannes compreenderão sua mensagem às avessas, e optarão novamente pelos caminhos da violência. Outro grande incêndio acontecerá, desta vez, fatal. E um epílogo improvável afirma que novos tempos de paz só acontecerão se tudo o que a civilização construiu até agora for rejeitado, fazendo a sociedade se despir – no caso, literalmente – dos antigos valores e começar de novo.

Afinal, como pergunta o documentário que provocou esse texto, “O que os cineastas daquela época sabiam que o resto do mundo ainda não sabia?”

Assista “Nerven” em www.youtube.com/watch?v=66A_EGgmtu0