O BELO E RARO “DESVIO”, QUE NEM ESTÁ NO IMDB.

Por Celso Sabadin. 

Sem muito alarde (na verdade, sem nenhum alarde), a Cinemateca Brasileira disponibilizou gratuitamente no YouTube uma raridade do nosso cinema: “Desvio”, de 1953, um belo drama social do qual eu nunca tinha ouvido falar. O filme sequer consta no Imdb.

A trama mostra Ricardo (vivido pelo galã Walter Forster), típico exemplar da elite paulistana que, por amor, troca radicalmente de vida: ao se apaixonar pela feirante Ana (Magdalena Nicol), ele abandona todo o seu conforto burguês para morar com a moça na beira da linha do trem, na zona oeste paulistana (o filme foi rodado nos bairros da Água Branca, Lapa e Barra Funda). Passada a euforia da paixão, porém, Ricardo é obrigado a encarar a vida e perceber que, no mundo real, é preciso trabalhar duro para sobreviver. Talvez a criminalidade seja um caminho.

“Desvio” não é uma raridade apenas por ter sido esquecido pelo tempo. Ele é – provavelmente – a única produção da Coluna Companhia Produtora, empresa criada pela atriz, escritora e diretora teatral Magdalena Nicol, que além de ser a protagonista, é também a autora do conto que originou o filme. O nome dela tampouco consta no Imdb.

Também conhecida como Magdalena Mendes Cajado, Magdalena Nicol era sobrinha-neta do ex-presidente da República Prudente de Morais, estudou Direito na USP, começou sua carreira como soprano, destacando-se depois no Teatro Brasileiro de Comédia e na TV Tupi, onde participava do Grande Teatro Tupi, programa que transmitia adaptações teatrais ao vivo, numa época em que ainda não existia a tecnologia da gravação em vídeo. Em 1952, transferiu-se para a TV Paulista (detentora do Canal 5 de São Paulo, antes da fundação da Globo), onde criou a série dramática Teatro Madalena Nicol, que permaneceu no ar até 1953, quando o Teatro Cacilda Becker assumiu a programação.

Talvez – e apenas talvez – aí esteja a origem de “Desvio”. Como nos registros da Cinemateca não há notícias sobre sua estreia em salas de cinema, existe a possibilidade dele ter sido um especial de TV (Tupi ou Paulista) produzido em película. Outro fator que reforça essa possibilidade é a sua duração (apenas 1 hora e 3 minutos), que se adapta mais à televisão que ao cinema.

De qualquer maneira, “Desvio” surpreende pelas suas qualidades. A direção de Luiz José Watson (creditado como L.J. Watson, que também assina produção e fotografia, de quem também não encontrei referência alguma) é segura e envolvente, principalmente na segunda parte da obra, quando ela assume contornos fortemente influenciados pelo cinema noir estadunidense. As interpretações de todo o elenco são bastante consistentes, ainda que o roteiro já padeça do congênito e incurável grande mal do cinema brasileiro: a narração em off. É verdade que existe uma boa dose de determinismo social no argumento, sugerindo a mensagem de que quem é pobre tem mais é que ficar eternamente pobre mesmo, mas se percebermos essa linha de pensamento como uma crítica, o filme cresce.

O elenco ainda tem Jaime Barcellos (ótimo), além de Paulo Cajado, Dinah Fontana, Beila Genaver, Salma Yanni, Ulla Lander, Everson Oliveira, Samuel Santos e Luciano Gregory, atores e atrizes bem difíceis de se encontrar referências.

O filme foi restaurado pelo Projeto Nitratos da Cinemateca Brasileira, iniciado em 2021, e pode ser visto em ótima cópia em

https://www.youtube.com/watch?v=RpNRl2THlfs

Se alguém que estiver lendo tiver mais informações sobre o filme, eu agradeço.