“O CALDEIRÃO DA SANTA CRUZ DO DESERTO” É BRASIL NA VEIA.  

Por Celso Sabadin. 

Nem só de documentários inéditos vive o Festival É Tudo Verdade. O evento – sabiamente – sempre reserva também uma parte de sua programação para a documentação audiovisual de importantes obras do passado. Obras, inclusive, que diante das perspectivas cada vez mais reacionárias do mundo atual, acabam se revelando tão – ou mais – sintonizadas com a contemporaneidade agora do que na época em que foram feitas.

Neste sentido, (re)ver “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”, o primeiro longa de Rosemberg Cariry, é, digamos, revolucionário. O longa registra a experiência vanguardista e transformadora da criação da Comunidade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, nos anos 1920 e 30, no interior cearense. Liderada pelo beato José Lourenço, a comunidade foi um marco de construção social solidária no Ceará, implantando conceitos de cooperativismo e – claro – socialismo. Como não poderia deixar de ser neste país ultra-conservador, a experiência desagradou a igreja, a imprensa e o governo de Getúlio Vargas, que naquele início de anos 30 já flertava com o pensamento nazifascista que ganhava força na Europa. Resulado? O de sempre: genocídio. Com direito a bombardeio aéreo.

Com roteiro do próprio diretor e Firmino Holanda, e fotografia de Ronaldo Nunes, “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” reune depoimentos raros e inéditos de sobreviventes e até de algozes do massacre da comunidade. “Durante décadas, foi um tabu falar desse episódio tão trágico, até que um grupo de jovens cearenses resolveu fazer um filme, quando o país vivia o seu processo de redemocratização. Graças a esse resgate histórico, a memória da comunidade não se perdeu; ao contrário, continua a pulsar, despertando reflexões e inspirando movimentos de organização comunitária, sobretudo no âmbito do Movimento Sem Terra. Considero o filme O Caldeirão a conquista de uma geração que ousou fazer cinema em uma época em que, no Ceará, quase nada apontava para esse caminho”, afirma Cariry.

Reconhecido por seu pioneirismo e por sua experimentação insubmissa, o filme permanece como um documento vivo e uma experiência estética singular, unindo a narrativa histórica à força e à diversidade das culturas populares em uma construção narrativa ousada para a época. Trata-se de um registro inestimável entre o tempo da história e o tempo da arte, reafirmando o compromisso de vida do cineasta com o resgate das memórias profundas do povo cearense e nordestino.

Ao refletir sobre o filme, o pesquisador Jean-Claude Bernardet escreveu: “A proposta de Rosemberg é claríssima e se delineia firmemente logo nos dois primeiros planos do filme. Primeiro plano: um bucrânio ainda ensanguentado, com um olho morto-vivo, a nos olhar terrivelmente; segundo plano: a câmera aproxima-se de uma repartição pública, ou melhor, um museu, que se anima com a chegada de um grupo de dança. É preciso tirar a história dos museus”. Já o cineasta documentarista Vladimir de Carvalho observou, na época: “Confesso que muito raramente tenho visto se tomar tanta liberdade com o material recolhido e se experimentar com tamanho gosto e avidez. E isso sem nunca perder o rumo da verdade, nem faltar com a autenticidade”.

“O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”, é o terceiro filme de Rosemberg Cariry restaurado em 4K, após “Corisco e Dadá” (1996) e “Lua Cambará – Nas Escadarias do Palácio” (2002), ambos reexibidos no circuito de festivais nacionais. A iniciativa visa aproximar as obras clássicas de Cariry das novas gerações, proporcionando uma revisão das abordagens estéticas do cineasta ao tratar assuntos relevantes para a cultura nordestina.

As sessões acontecem no dia 17 de abril, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e no dia 18 de abril, no Estação Net Rio, no Rio de Janeiro. Grátis.

Acompanhe a programação do É Tudo Verdade em https://www.etudoverdade.com.br/br/home/
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Quem dirige

 Rosemberg Cariry nasceu em Farias Brito, no Ceará, em 1953. É diretor, roteirista e produtor. Começou sua carreira cinematográfica em 1975 e, na década de 1980, estreou na direção do longa-metragem “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” (1986). Nos anos 90, dirigiu “A Saga do Guerreiro Alumioso” (1993) e “Corisco e Dadá” (1996). Nos anos 2000, realizou cinco longas-metragens, sendo os mais expressivos “Lua Cambará – Nas Escadarias do Palácio” (2002), “Patativa do Assaré: Ave Poesia” (2007) e “Siri-ará” (2008). Dirigiu também “Os Pobres Diabos” (2013), “Notícias do Fim do Mundo” (2019) e “Os Escravos de Jó” (2020). Com seus filmes, participou de festivais nacionais e internacionais, conquistando vários prêmios. Atuou em importantes entidades representativas do audiovisual brasileiro, tendo exercido a presidência do Congresso Brasileiro de Cinema (CBC) e integrado o Conselho Superior de Cinema, além de participar de diversos fóruns nacionais e internacionais. É graduado em Filosofia, com doutorado e pós-doutorado em Educação Artística pela Universidade do Porto e de Lisboa. Em 2024, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Regional do Cariri (URCA).