O FRACASSO DE “GENUINE” APÓS O SUCESSO DE “CALIGARI”.
Por Celso Sabadin.
Em setembro de 1920, apenas seis meses após o lançamento de “O Gabinete do Dr. Caligari”, a cidade de Berlim recebia a première do longa “Genuine”, drama fantástico sobre uma misteriosa sacerdotisa com irresistíveis poderes de sedução sobre os homens. O tempo passou e fez de “O Gabinete do Dr. Caligari” um dos maiores clássicos da história do cinema, tema obrigatório em qualquer curso de audiovisual que se preze, enquanto “Genuine” foi engolido pelas sombras do ostracismo, que são mais letais que as do Expressionismo Alemão, inaugurado justamente por “…Caligari”.
Detalhe: “Genuine” tem roteiro de Carl Mayer, produção de Erich Pommer, fotografia de Willy Hameister, e direção de Robert Wiene, ou seja, exatamente os mesmos profissionais de “O Gabinete do Dr. Caligari”. Algumas hipóteses tentam explicar tal disparidade de desempenhos, entre elas o pioneirismo inovador do revolucionário “…Caligari” (mesmo que por apenas seis meses), que teria dado a “Genuine” um status de imitação. Passado mais de um século de ambas as estreias, talvez seja inócuo tentar agora descobrir os motivos que levaram “Genuine” ao esquecimento. A boa notícia é que o filme está disponível gratuitamente na internet para ser conferido, comparado e estudado. A cópia não é das mais nítidas, mas pelo menos está em sua versão integral de 1h28, bem melhor que o corte de cerca de 45 minutos que circulou pelo mercado como extra do DVD de “O Gabinete do Dr. Caligari”, lançado em 2015.
A Genuine do título (vivida pela estadunidense Fern Andra, que se destacou no cinema alemão) é uma mulher exótica, sensual, sedutora, mágica e cruel que foi escravizada após seu povo ter perdido uma batalha tribal. Não fica claro qual seria sua origem, o que não tem a menor importância. Genuine é comprada pelo milionário excêntrico Lorde Melo (Ernst Gronau), que a prende em sua estranhíssima casa. Através de diferentes circunstâncias (o roteiro é meio rocambolesco), ela se transforma no objeto do desejo de Florian (Hans Heinrich von Twardowski ), sobrinho do barbeiro que diariamente “cortava” o inexistente cabelo de Lorde Melo; e de Darcy (Hans Heinrich von Twardowski), bisneto do milionário. Luxúria e insanidade comandam as narrativas do longa, cuja cenografia extremamente vanguardista e rebuscada faz “O Gabinete do Dr. Caligari” parecer “clean”.
“Genuine” foi lançado nos EUA como “Genuine: The Tragedy of a Vampire”, mesmo não havendo vampiro algum no filme. Provavelmente tal título se dá pelo fato de, até a virada da década de 1920, a palavra vampiro também designar uma “mulher fatal”, tendo sido substituída, na década seguinte, por “vamp”, por pressões dos conservadores estadunidenses. Em alemão, eventualmente também se utiliza em “Genuine” o subtítulo “Tragödie eines seltsamen Hauses”, algo como “tragédia de uma casa estranha”, em tradução livre.
A cópia com aquelas legendas em português geradas pelo YouTube está em www.youtube.com/watch?v=XHP3TKmCO4o

