O QUE É PÚBLICO É “SAGRADO”. O PRIVADO É PROFANO.

 Por Celso Sabadin

Décadas atrás, quando os documentaristas desenvolveram um tipo de documentário denominado “observativo”, alguém disse que, dentro daquele estilo, a câmera assumia o lugar de “uma mosquinha na parede”: só olhando, só observando, e ninguém prestando atenção que ela estava lá.

“Sagrado”, um dos destaques da 31ª edição do Festival “É Tudo Verdade”, é exatamente esse tipo de documentário, que por sinal me agrada bastante. Sempre fico me perguntando como uma equipe de documentaristas consegue se transformar nesta pequena mosquinha, “desaparecendo”, sem chamar a atenção dos objetos documentados.

Mas “Sagrado” vai muito além desta sua intrigante e atrativa questão formal. O longa é de uma sensibilidade extrema, mostrando, acima de tudo, o que uma entidade de ensino deveria ser: uma instituição de acolhimento.

Com roteiro, direção e produção de Alice Riff, “Sagrado” documenta a história e o dia-a-dia de uma escola pública de ensino fundamental em Diadema, na região do ABC paulista. E pode tirar da sua cabeça todos esses clichês que você, leitor, acabou de imaginar quando leu “uma escola pública de ensino fundamental”. Simplesmente esqueça o preconceito e mergulhe no filme. Seja uma mosquinha. “Sagrado” não tem depoimento de ninguém reclamando do poder público, não mostra nenhum aluno ou aluna, não traz proselitismos superficiais, tampouco panfletarismo barato. O filme simplesmente passeia com total desenvoltura pelo interior da escola Sagrado Coração de Jesus, registrando as alegrias, tristezas, os corres e perrengues infinitos de seus funcionários, e provando – claro como a água – que Ensino jamais poderia ser uma atividade administrada pela iniciativa particular. O Ensino jamais poderia ser mercadoria. Só mesmo uma instituição pública teria (e tem) capacidade de tratar o Ensino com humanidade, com acolhimento, sem nenhuma preocupação se os alunos dão ou deixam de dar lucro para a instituição.

As várias situações levantadas pelo documentário são – no mínimo, desesperadoras – mas não se vê tal desespero contaminar a equipe de profissionais do Sagrado. Pelo contrário, do porteiro à direção da escola, todos agem com uma qualidade simplesmente impensável na iniciativa privada: humanidade. A empresa exclui; o Estado inclui.

E antes que alguém me diga que filme aceita tudo, que uma boa edição é sempre capaz de manipular a verdade (o que, claro, é verdade, pois é tudo verdade), quero deixar claro que vi o documentário com os olhos e a emoção de quem criou dois filhos no ensino público. E que ambos agora cursam ótimas universidades. Pública, claro…

 

Quem dirige

Alice Riff (São Paulo, 1984) é diretora, roteirista e produtora dos longa-metragens documentais Eleições (2018), Meu Corpo é Político (2017) e Platamama (2018). Seus filmes passaram por importantes festivais nacionais e internacionais como Visions du Réel, Dok Leipzig, Festival do Rio, BAFICI, Festival del Nuevo Cine Latinoamericano de Havana e Festival de Brasília. Meu Corpo é Político recebeu o prêmio de Melhor Filme Brasileiro no Olhar de Cinema de Curitiba e Melhor Filme no Lovers – LGBT Torino Film Festival.

 

Acompanhe a programação do É Tudo Verdade em www.etudoverdade.com.br/br/home/