“PELE DE VIDRO”, CORAÇÃO DE CRISTAL.
Por Celso Sabadin.
Eu pensava que – depois do seminal e emblemático “Edifício Master” – não seria mais possível alguém fazer um outro documentário, sobre algum prédio, que provocasse tantas emoções. “Pele de Vidro”, que estreou nesta quinta, 19/03, em cinemas, provou que eu estava errado.
O longa começa como tantos outros têm começado, nos últimos anos: o diretor (no caso, diretora) confessando em primeira pessoa, com sua própria voz em off, algum nó de relacionamento com seu próprio pai ou mãe. Logo pensei: “Outro doc.psicoterapia? E com cenas de praia? Ninguém merece!”. Eu estava errado novamente.
“Pele de Vidro” tem, sim, um início, digamos, psicoterápico, mas aos poucos evolui para outras leituras com rara desenvoltura. A diretora/ produtora/ corroteirista Denise Zmekhol investiga a gênese e a construção do histórico edifício Wilton Paes de Almeida, no centro paulistano, enquanto paralelamente destrincha suas questões psicológicas com o pai. Explicando: o apelido do citado edifício é Pele de Vidro. E o talento arquitetônico que o projetou é Roger Zmekhol, pai de Denise.
Talvez eu esteja dando um spoiler para os menos antenados nas questões paulistanas, mas o filme dá uma guinada épica no momento em que seu objeto documentado se incendeia, escancarando a partir daí uma série de novas leituras que envolverão profundos temas humanistas e sociais que permanecem longe de suas resoluções. É o chamado “plot twist, e dos bons!
Coproduzido por Brasil e por aquele país que atualmente é comandado por um idiota que que anda atacando todo mundo procurando guerra, “Pele de Vidro” já passou por mais de 60 festivais ao redor do mundo e recebeu 13 prêmios, incluindo melhor longa documental em festivais de arquitetura na França, Itália, Espanha e Suécia. Recebeu também o prêmio do público no Mill Valley Film Festival, e menção honrosa no Ischia Film Festival (Itália).
Felizes os cinéfilos de Brasília (DF), Campinas (SP), Curitiba (PR), Porto Alegre (RS), Ribeirão Preto (SP), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e São Paulo (SP), que têm a oportunidade de ver “Pele de Vidro” nos cinemas. Torcendo para que o circuito seja estendido.
Quem dirige
Denise Zmekhol é uma premiada produtora e diretora de documentários, reconhecida pelo elegante estilo visual de seus filmes. Entre eles, destaca-se “Crianças da Amazônia”, exibido no Brasil pela TV Cultura, Canal Curta, PBS nos EUA e em televisões europeias. O filme ganhou diversos prêmios em festivais internacionais. Além disso, a cineasta coproduziu e codirigiu a série “Digital Journey” que recebeu um Emmy Award e foi exibida na televisão pública americana.

