POR QUEM BALEM OS CARNEIROS DE “AGNUS DEI”?
Por Celso Sabadin.
Sim, “Agnus Dei” é todo “lindo”, para usar o adjetivo mais recorrente neste tipo de filme. Trata-se de um documentário quase sem palavras que observa com olhar encantado a tradição secular das freiras Beneditinas do Mosteiro de Santa Cecilia, em Trastevere, no coração de Roma. Em ritmo lento e contemplativo, dentro das paredes de um antigo mosteiro beneditino, o longa acompanha um grupo de freiras enclausuradas em seu cotidiano silencioso que, entre outras atividades, realiza artesanalmente a tecelagem de lã de cordeiro para criar o Pálio, uma tradicional vestimenta litúrgica dada ao Papa e aos arcebispos metropolitanos.
Tudo muito belamente fotografado e relaxante… se você não for um carneiro. Eu não saberia dizer com qual propósito, mas o fato é que o diretor e roteirista Massimiliano Camaiti realiza “Agnus Dei” a partir do ponto de vista dos carneiros. Na primeira cena vemos o nascimento de um indefeso filhote que muito em breve será cruelmente afastado de sua mãe para, ao lado de um outro filhotinho, ser levado para o convento. A imagem da mãe balindo com dor e desespero a violenta separação permanecerá em nossas mentes até o fim do filme. Os dois recém-nascidos perambulando perdidos pelo lugar são de cortar o coração.
Chegando ao mosteiro, os carneiros são, sim, muito bem tratados, mas a pergunta é inevitável: para quê? Para realizar um caprichoso ritual religioso de pouco ou nenhum sentido remanescente nos dias de hoje? O material de divulgação do filme fala de “um gesto de fé e devoção”. Particularmente, achei cruel. Os veganos vão odiar.
“Agnus Dei” faz parte da 8 ½ Festa do Cinema Italiano no Brasil, iniciada nesta quinta, 25/06. A programação completa está em https://br.festadocinemaitaliano.com

