“PRIMAVERA”: BELÍSSIMO E EVENTUALMENTE HESITANTE.
Por Celso Sabadin.
É interessante como, muitas vezes, a primeira cena de um filme já deixa bastante claro como será todo o seu desenvolvimento. Não estou falando de previsibilidade, mas de estilo.
Explicando melhor: na primeira cena do emocionante “Primavera”, algumas noviças se encantam ao descobrir uma gata que acabou de dar à luz alguns gatinhos, num canto escondido qualquer de um convento. Imediatamente surge de forma agressiva uma espécie de madre superiora, mal encarada, que tira violentamente os gatinhos da mãe e os coloca num saco, para o espanto de todas. Uma das noviças – e apenas uma – fica indignada com a situação e tenta impedir a malfeitora, que a empurra para o chão. Vitoriosa, a madre sai de cena.
Cinematograficamente falando, tudo perfeito. Em poucos segundos, a construção da ação consegue a empatia do público (quem não gosta de filhotes de gatos?) e imediatamente constrói tanto a persona da terrível vilã como a daquela jovem heroína que – mesmo trajada exatamente igual às suas colegas- se destaca pela sua atitude e se configura claramente como a protagonista da história a ser contada. Estabelece-se também de forma intensa e imediata o primeiro ponto de conflito do roteiro, sem a menor necessidade de diálogos explicativos. Isso se chama cinema, e dos bons.
Porém – ai porém – a cena não acabou. Com o grande saco repleto de gatinhos miando, a madre superiora se dirige até a porta do convento, abre-a, vai até uma lixeira na rua…etc. etc… e aí eu pergunto: prá quê? Por que estender um momento do filme que estava simplesmente perfeito? E é neste ponto que eu volto ao primeiro parágrafo deste texto.
“Primavera”, que é belíssimo, padecerá em vários e vários instantes desta mania de estender a cena quando tudo já está claro. Chamo isso de “Síndrome da insegurança do produtor”, ou seja, aquele momento em que algum responsável pelo investimento do filme questiona: “será que o público vai entender direitinho? Não seria melhor explicar mais um pouquinho?”. E aí o medo de errar financeiramente fala mais alto que a vontade de acertar artisticamente. E quem sofre com isso é a tal da sutileza, um bem que entrou em extinção nos tempos atuais.
Há mais. No citado convento, existe um código secreto no livro de registro das noviças que permite a identificação das mães e dos bebês que lá são deixados para a adoção, caso futuramente alguma mãe se arrependa e deseje resgatar a filha antes rejeitada. Tal código é visual e cinematograficamente decifrado diante dos olhos do espectador, sem a necessidade de sequer uma palavra, em outra cena belissimamente construída. Ao fim da cena, uma personagem explica verbalmente tudo o que já foi mostrado visualmente, caso, sei lá, algum espectador estivesse distraído com a pipoca ou com o celular, no momento. Ou talvez seja uma consequência do (d)efeito streaming de nivelamento por baixo da percepção do público.
Eu poderia dizer o mesmo de outro inspirado momento audiovisual e poético que marca o término de uma guerra (fato determinante para o desenvolvimento do roteiro), em cujo final de cena surge alguém para verbalizar: “A Guerra acabou”. Vai que o público pensasse que os sinos batendo, as pessoas felizes e ou fogos espoucando fossem pela Copa do Mundo, né? É bom deixar claro.
De qualquer maneira, mesmo com tais instantes de produtor, “Primavera” é uma coprodução franco-italiana ambientada na Veneza do século 18 que encanta olhos, ouvidos e percepções, e merece ser visto em algum cinema de boa qualidade de som e projeção. Sobre o que fala o filme? Poxa… as pessoas se prendem a cada detalhe…

