SEM NENHUM PAÍS AFRICANO COMO PRODUTOR, “O RISO E A FACA” DISCUTE COLONIALISMO NA ÁFRICA.
Por Celso Sabadin.
A primeira cena de “O Riso e a Faca” mostra um carro sendo parado em uma estrada por uma barricada improvisada, nada oficial. O suposto guarda pede os documentos ao motorista, ensaia uma inspeção superficial, e lhe pede uma estranha gorjeta: um livro. O motorista lhe dá um livro e assim é liberado para seguir viagem. E que viagem!
Logo percebemos que o tal motorista é Sergio (Sergio Coragem) um engenheiro português que foi à África contratado por uma ONG para realizar um estudo de impacto ambiental para a construção de uma estrada. E logo percebemos também, pela estranheza da primeira cena, que “O Riso e a Faca” não será uma jornada nada convencional. Não apenas pela duração do filme – 3 horas e meia – como principalmente pelo fato dele ser uma produção primordialmente realizada por Portugal, país do qual quase sempre o cinéfilo espera uma narrativa bem diferenciada. E quase sempre é atendido.
Em estilo quase documental, “O Riso e a Faca” narra – sem pressa – o mergulho do protagonista na cultura de Guiné Bissau, e principalmente seu desprendimento em dela participar ativamente. Seja amando, perguntando, conhecendo parceiros e famílias, participando de discussões sobre colonialismo, temendo, mas sempre deixando-se levar. Diferente de seus conterrâneos em épocas passadas, Sérgio não parece querer conquistar a terra em que se inseriu para trabalhar, mas ser conquistado por ela.
O diretor Pedro Pinho afirma que o filme parte “da ideia central da relação entre o poder e os corpos dos ‘outros’” e afirma que o longa “mergulha no calor sufocante, nos escritórios climatizados das ONGs, nos jipes brancos, nas ruas empoeiradas, nas buzinas dos carros e nas festas glamourosas — todos, símbolos da presença da comunidade expatriada num cenário de capitalismo pós-colonial”. Segundo ele, “no coração do filme está o eterno ‘encontro’ entre a Europa e África, em contraste com uma batalha furtiva por um devir queer, que se desenha nas discotecas e nas ruas de uma cidade da África Ocidental”.
Há, contudo, uma contradição intrínseca em “O Riso e a Faca”: ele é coproduzido por França, Portugal, Brasil e Romênia. Ou seja, ainda que filmado na Mauritânia e Guiné Bissau, trata-se de uma obra que discute o colonialismo sem que nenhum país africano participe de sua produção. A questão aqui é estrutural.
Quem dirige
Pedro Pinho nasceu em Lisboa e viveu em Paris, Barcelona, Maputo (Moçambique) e Mindelo (Cabo Verde). Em 2009, fundou, com outros cinco cineastas, a produtora Terratreme. O seu primeiro documentário, Bab Sebta (co-realizado com Frederico Lobo), estreou no FIDMarseille em 2008, onde ganhou o Prêmio Espérance de Marselha. O média-metragem de ficção Um Fim do Mundo participou da seção Generation, da Berlinale, em 2013. Em 2014, o documentário As Cidades e as Trocas (correalizado com Luísa Homem) estreou no FIDMarseille e no Art of the Real no Lincoln Center, em Nova York. Em 2017, sua estreia em longas-metragens de ficção, A Fábrica de Nada, estreou na Quinzena de Cineastas de Cannes, onde ganhou o Prêmio FIPRESCI da Crítica Internacional e recebeu outros 20 prêmios em festivais em todo o mundo. O filme recebeu ainda dois prêmios Sophia, o Oscar do cinema português e foi lançado comercialmente em países da Europa, Ásia e América Latina, entre eles o Brasil.

